James Hollis começa seu livro "Os pantanais da alma - nova vida em lugares sombrios" com uma inquietante reflexão sobre o pensamento, amplamente difundido pela cultura ocidental, de que a meta da vida é alcançar a felicidade.
Seus argumentos refutam esta ideia e o ponto fulcral de sua tese é o de que a vida é composta tanto por "campinas ensolaradas" quanto por "pântanos escuros", ambos lugares importantes para nossa jornada individual.
É fácil perceber, mas nem tanto aceitar, que a vida é permeada por incertezas, intempéries e acontecimentos desagradáveis que transcendem o nosso querer e estão longe do nosso controle. Estamos constantemente nos debatendo com a diferença entre o que gostaríamos e o que realmente encontramos ao nosso dispor. Diante da inevitabilidade das decepções e frustrações, a atitude de considerarmos a felicidade como a suprema meta da vida não é só ilusória, mas também extremamente prejudicial. Pactuando com essa crença corremos o perigo de cair em depressão ou profunda inquietação, pois os reais estados sombrios da alma tornam-se tão indesejados e sem lugar que acabamos negando, rejeitando e reprimindo tudo o que consideramos inadequado em nós, nos outros ou nas situações que enfrentamos. O sofrimento torna-se tão sem sentido, que o sentido curativo que está sempre oculto em nosso sofrimento não pode ser acessado. Como afirma Jung:
“O principal objetivo da terapia psicológica não é transportar o paciente para um impossível estado de felicidade, mas sim ajudá-lo a adquirir firmeza e paciência diante do sofrimento. A vida acontece num equilíbrio entre a alegria e a dor.”
Dependendo da forma como encaramos os desafios e as quedas, o sofrimento que experimentamos em nossos conflitos e "provações" pode assumir um aspecto muito positivo: o de chamar a atenção para um indesejável estado de coisas e inspirar o desejável estado de reflexão e mudança. Diante das crises e momentos de
infelicidade, nos damos conta de que alguma atitude precisa ser tomada e
"sofrer estoicamente, reagir heroicamente ou lamentar nossa condição
parece ser uma escolha onerosa, porém inevitável" (Hollis, p.9). Apesar de frequentemente estarmos perdidos nos sombrios estados da culpa, da dor, da traição, da dúvida, da depressão e da raiva,
"Quando formos capazes de enxergar nossas próprias mesquinharias, ciúmes, ódios, rancores etc., então isso poderá se reverter num bem positivo, pois em tais emoções tão destrutivas está armazenada muita energia vital, e quando se tem tal energia à disposição, ela poderá ser encaminhada para fins positivos" (von Franz).
Quando evitamos esses sombrios estados da alma e perseguimos freneticamente o desejo de sermos felizes e despreocupados, perpetuamos o sofrimento. Não há descanso, não há relaxamento, estamos constantemente em estado de alerta, lutando contra as intempéries, contra o natural fluxo da vida de contração e expansão, fluxo e refluxo, subida e descida... O ego, demasiadamente apegado ao controle, à segurança e à cessação do conflito, "desconsidera, reprime, nega e foge dos pantanais. No entanto, grande parte da nossa vida é vivida a partir dessas regiões, e grande parte da prisão da neurose é uma negação dessa esfera" (Hollis, p.19).
Para a psicologia junguiana, que reconhece as polaridades da vida e considera a importância tanto da campina quanto do pântano, a meta da vida não pode ser a felicidade, mas sim a busca do significado. Buscar o verdadeiro sentido para o que nos acontece é uma atitude com grande poder curativo: nos libera da vitimização e imprime em nossa caminhada a heroica capacidade de resignificar, mudar e fluir. E apesar do significado nem sempre ser colorido e florido, ele é sempre real; e é só com os pés bem enraizados na realidade, seja ela qual for, que podemos trilhar nosso caminho e decidir o melhor rumo. Como afirma Jung, "o sentido torna suportável uma grande parte das coisas - talvez tudo". Ele nos conecta com a realidade, inunda as trevas com luz e nos faz atravessar o sofrimento.
Para a psicologia junguiana, que reconhece as polaridades da vida e considera a importância tanto da campina quanto do pântano, a meta da vida não pode ser a felicidade, mas sim a busca do significado. Buscar o verdadeiro sentido para o que nos acontece é uma atitude com grande poder curativo: nos libera da vitimização e imprime em nossa caminhada a heroica capacidade de resignificar, mudar e fluir. E apesar do significado nem sempre ser colorido e florido, ele é sempre real; e é só com os pés bem enraizados na realidade, seja ela qual for, que podemos trilhar nosso caminho e decidir o melhor rumo. Como afirma Jung, "o sentido torna suportável uma grande parte das coisas - talvez tudo". Ele nos conecta com a realidade, inunda as trevas com luz e nos faz atravessar o sofrimento.
A "revelação" do significado nos é dada pela reflexão que, psicologicamente falando, pode ser entendida como o ato de "produzir consciência". De acordo com o Dicionário Crítico de Análise Junguiana (http://www.rubedo.psc.br) a reflexão é
"um voltar-se para trás ou para dentro a partir da consciência, de modo que, em vez de uma reação imediata ou não premeditada a estímulos objetivos, intervém uma elaboração psicológica. O efeito de tal elaboração é imprevisível e, em consequência da liberdade para refletir, respostas individualizadas e relativizadas são possíveis".
A consciência tem, portanto, não apenas uma função cognitiva, mas também uma função espiritual: a de ampliar e enriquecer o sentido de nossa existência. Por intermédio dela, podemos tornar nossa jornada mais significativa. E essa é uma de nossas mais profundas necessidades, sobretudo numa sociedade hedonista e consumista como a nossa.
Significado, reflexão, ampliação da consciência e integração do inconsciente são aspectos que nos conduzem ao autoconhecimento e à verdadeira felicidade. Como bem percebeu Jung, "só aquilo que somos realmente tem o poder de curar-nos".
Somos luz e sombra e "a tarefa da individuação é a totalidade (...) que inclui a descida que a psique frequentemente impõem ao ego relutante" (Hollis, p. 19). A terapia pretende, justamente, auxiliar o ego em sua jornada de rendição ao Self (Eu maior). A partir das reflexões suscitadas pelo processo terapêutico a integração dos aspectos inconscientes se torna possível. A análise é uma valiosa ferramenta de auxílio ao confronto saudável e promissor com o mal-estar psíquico (ansiedades, medos, conflitos, depressões etc.). Seu "objeto" é o inconsciente (seus conteúdos e processos) e o seu o objetivo é estabelecer um relacionamento consciente com as motivações inconsciente que determinam nossas ações e escolhas. É conhecer e transformar as condições psíquicas que estão sendo sentidas como intoleráveis devido as suas interferências negativas na vida consciente.
"(...) em cada um desses estados do pantanal existe o desafio implícito de descobrir seu significado e a mudança de comportamento ou atitude que ele pode exigir. Enfrentar cada pantanal como uma pergunta implícita - qual o significado da minha depressão, a que a ansiedade está ligada na minha história, pelo que sou possuído - nos permite ser ativos em vez de passivos no nosso sofrimento".
Ao empreendermos a tarefa/desafio que cada pantanal nos oferece, conseguimos nos libertar da fantasiosa felicidade permanente e da sensação de derrota, culpa ou vergonha de nunca alcançá-la plenamente. Somos capazes, então, de transpor o sofrimento e seguir em direção a uma consciência expandida, a única capaz de despertar nossa criatividade e nosso potencial curativo. A única capaz de nos sintonizar com uma experiência de felicidade interior mais sólida e real do que aquela difundida nos famosos "comerciais de margarina".
Anaïs Nin nos apresenta o que eu chamaria de um legítimo convite feito pelo processo terapêutico:
“E chegou o dia em que o risco de continuar espremido dentro do botão era mais doloroso que o de desabrochar”


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