Este é um espaço para a reflexão de temas que em algum momento e por alguma razão (do meu contexto pessoal ou da minha prática clinica) se tornaram, usando uma expressão gestáltica, importantes FIGURAS no imenso FUNDO existencial.

4 de fevereiro de 2013

Abordagem junguiana do sofrimento - Parte 1

 
James Hollis começa seu livro "Os pantanais da alma - nova vida em lugares sombrios" com uma inquietante reflexão  sobre o pensamento, amplamente difundido pela cultura ocidental, de que a meta da vida é alcançar a felicidade. 

Seus argumentos refutam esta ideia e o ponto fulcral de sua tese é o de que a vida é composta tanto por "campinas ensolaradas" quanto por "pântanos escuros", ambos lugares importantes para nossa jornada individual. 

É fácil perceber, mas nem tanto aceitar, que a vida é permeada por incertezas, intempéries  e acontecimentos desagradáveis que transcendem o nosso querer e estão longe do nosso controle. Estamos constantemente nos debatendo com a diferença entre o que gostaríamos e o que realmente encontramos ao nosso dispor. Diante da inevitabilidade das decepções e frustrações, a atitude de considerarmos a felicidade como a suprema meta da vida não é só ilusória, mas também extremamente prejudicial. Pactuando com essa crença corremos o perigo de cair em depressão ou profunda inquietação, pois os reais estados sombrios da alma tornam-se tão indesejados e sem lugar que acabamos negando, rejeitando e reprimindo tudo o que consideramos inadequado em nós, nos outros ou nas situações que enfrentamos. O sofrimento torna-se tão sem sentido, que o sentido curativo que está sempre oculto em nosso sofrimento não pode ser acessado. Como afirma Jung:
“O principal objetivo da terapia psicológica não é transportar o paciente para um impossível estado de felicidade, mas sim ajudá-lo a adquirir firmeza e paciência diante do sofrimento. A vida acontece num equilíbrio entre a alegria e a dor.”
Dependendo da forma como encaramos os desafios e as quedas, o sofrimento que experimentamos em nossos conflitos e "provações" pode assumir um aspecto muito positivo: o de chamar a atenção para um indesejável estado de coisas e inspirar o desejável estado de reflexão e mudança. Diante das crises e momentos de infelicidade, nos damos conta de que alguma atitude precisa ser tomada e "sofrer estoicamente, reagir heroicamente ou lamentar nossa condição parece ser uma escolha onerosa, porém inevitável" (Hollis, p.9). Apesar de frequentemente estarmos perdidos nos sombrios estados da culpa, da dor, da traição, da dúvida, da depressão e da raiva,
"Quando formos capazes de enxergar nossas próprias mesquinharias, ciúmes, ódios, rancores etc., então isso poderá se reverter num bem positivo, pois em tais emoções tão destrutivas está armazenada muita energia vital, e quando se tem tal energia à disposição, ela poderá ser encaminhada para fins positivos" (von Franz).
Quando evitamos esses sombrios estados da alma e perseguimos freneticamente o desejo de sermos felizes e despreocupados, perpetuamos o sofrimento. Não há descanso, não há relaxamento, estamos constantemente em estado de alerta, lutando contra as intempéries, contra o natural fluxo da vida de contração e expansão, fluxo e refluxo, subida e descida... O ego, demasiadamente apegado ao controle, à segurança e à cessação do conflito, "desconsidera, reprime, nega e foge dos pantanais. No entanto, grande parte da nossa vida é vivida a partir dessas regiões, e grande parte da prisão da neurose é uma negação dessa esfera" (Hollis, p.19).

Para a psicologia junguiana, que reconhece as polaridades da vida e considera a importância tanto da campina quanto do pântano, a meta da vida não pode ser a felicidade, mas sim a busca do significado. Buscar o verdadeiro sentido para o que nos acontece é uma atitude com grande poder curativo: nos libera da vitimização e imprime em nossa caminhada a heroica capacidade de resignificar, mudar e fluir. E apesar do significado nem sempre ser colorido e florido, ele é sempre real; e é só com os pés bem enraizados na realidade, seja ela qual for, que podemos trilhar nosso caminho e decidir o melhor rumo. Como afirma Jung, "o sentido torna suportável uma grande parte das coisas - talvez tudo". Ele nos conecta com a realidade, inunda as trevas com luz e nos faz atravessar o sofrimento

A "revelação" do significado nos é dada pela reflexão que, psicologicamente falando, pode ser entendida como o ato de "produzir consciência". De acordo com o Dicionário Crítico de Análise Junguiana  (http://www.rubedo.psc.br) a reflexão é
"um voltar-se para trás ou para dentro a partir da consciência, de modo que, em vez de uma reação imediata ou não premeditada a estímulos objetivos, intervém uma elaboração psicológica. O efeito de tal elaboração é imprevisível e, em consequência da liberdade para refletir, respostas individualizadas e relativizadas são possíveis".
A consciência tem, portanto, não apenas uma função cognitiva, mas também uma função espiritual: a de ampliar e enriquecer o sentido de nossa existência. Por intermédio dela, podemos tornar nossa jornada mais significativa. E essa é uma de nossas mais profundas necessidades, sobretudo numa sociedade hedonista e consumista como a nossa.

Significado, reflexão, ampliação da consciência e integração do inconsciente são aspectos que nos conduzem ao autoconhecimento e à verdadeira felicidade. Como bem percebeu Jung, "só aquilo que somos realmente tem o poder de curar-nos".

Somos luz e sombra e "a tarefa da individuação é a totalidade (...) que inclui a descida que a psique frequentemente impõem ao ego relutante" (Hollis, p. 19). A terapia pretende, justamente, auxiliar o ego em sua jornada de rendição ao Self (Eu maior). A partir das reflexões suscitadas pelo processo terapêutico a integração dos aspectos inconscientes se torna possível. A análise é uma valiosa ferramenta de auxílio ao confronto saudável e promissor com o mal-estar psíquico (ansiedades, medos, conflitos, depressões etc.).  Seu "objeto" é o inconsciente (seus conteúdos e processos) e o seu o objetivo é estabelecer um relacionamento consciente com as motivações inconsciente que determinam nossas ações e escolhas. É conhecer e transformar as condições psíquicas que estão sendo sentidas como intoleráveis devido as suas interferências negativas na vida consciente.  

Na medida em que passamos a aceitar e investigar a interação entre a vida consciente e inconsciente, nos tornamos mais preparados para o fato de que  "(...) nossa vida psíquica frequentemente agirá fora do controle do ego, que seremos puxados para baixo em direção aos pantanais, e que iremos sofrer lá" (Hollis, p. 194). A boa noticia é que portando a luz da consciência  podemos descer às profundezas da almas sem se perder. Com ela iluminaremos o caminho, encontraremos o significado e subiremos renovados e fortificados. Nas palavras de Hollis (p.195):
"(...) em cada um desses estados do pantanal existe o desafio implícito de descobrir seu significado e a mudança de comportamento ou atitude que ele pode exigir. Enfrentar cada pantanal como uma pergunta implícita - qual o significado da minha depressão, a que a ansiedade está ligada na minha história, pelo que sou possuído - nos permite ser ativos em vez de passivos no nosso sofrimento".
Ao empreendermos a tarefa/desafio que cada pantanal nos oferece, conseguimos nos libertar da fantasiosa felicidade permanente e da sensação de derrota, culpa ou vergonha de nunca alcançá-la plenamente. Somos capazes, então, de transpor o sofrimento e seguir em direção a uma consciência expandida, a única capaz de despertar nossa criatividade e nosso potencial curativo. A única capaz de nos sintonizar com uma experiência de felicidade interior mais sólida e real do que aquela difundida nos famosos "comerciais de margarina".

Anaïs Nin nos apresenta o que eu chamaria de um legítimo convite feito pelo processo terapêutico: 
“E chegou o dia em que o risco de continuar espremido dentro do botão era mais doloroso que o de desabrochar”




25 de janeiro de 2013

Conversas com o inconsciente

     

O relacionamento com as imagens oníricas é um dos pilares da psicologia analítica. Para Jung, há uma intencionalidade evidente em todos os sonhos, que são como uma espécie de retrato fiel do momento de vida do sonhador, uma fotografia que revela, em linguagem simbólica, os desafios, desejos, ponderações e necessidades com as quais o ego deve travar relacionamento para seguir sua trajetória rumo ao Self, o arquiteto interior da integridade e ordem psíquicas. O acolhimento das mensagens oriundas do Self é um processo que atrai a agulha da bússola do ego para o norte verdadeiro. Os sonhos possuem uma capacidade diretiva e, assim sendo, são grandes professores na escola do autoconhecimento, fornecem valiosas lições para obtermos êxito na prova mais importante de nossas vidas, aquela que contém a seguinte questão: o que te faz único, individual, íntegro, completo e capaz de irradiar suas "bençãos", sua luz própria sobre os demais? 

Na Revista do Correio de junho de 2011 foi publicada uma reportagem sobre Jung, em comemoração aos 50 anos de sua morte. Reproduzo o trecho que fala sobre os sonhos. São informações e dicas que avalio como interessantes para aqueles que procuram no mundo onírico uma maior compreensão de si e dos caminhos que conduzem à auto-realização. 




Sonhos, fonte de sabedoria
Jung acreditava que os sonhos funcionavam como fotografias do dinamismo psíquico. As imagens neles contidas teriam uma função não só compensatória, como acreditava Freud, mas também serviriam para educar, orientar e até mesmo revelar lampejos de futuro — os ditos sonhos premonitórios, capazes de romper as fronteiras do tempo e do espaço. O olhar sobre o sonho, ensina, nunca deve ser restritivo: não cabe uma interpretação direta, como as sugeridas nos “dicionários dos sonhos”. O conteúdo deve ser sempre contextualizado a partir das referências pessoais do indivíduo que sonha. Abaixo, algumas dicas para que você tire proveito dos recados que o inconsciente oferece a cada noite.
- Construa um “sonhário”: Jung dizia que o simples registro diário dos sonhos já constitui um exercício terapêutico. Na medida em que anotamos as imagens, peripécias, sensações e emoções experimentadas no mundo onírico, conseguimos “organizar” os movimentos psíquicos. Compre um caderno que deverá ser dedicado exclusivamente aos sonhos e transforme o registro dos mesmos em um hábito diário.
- Descreva sempre um sonho no momento presente, como quem relata algo real. Comece pelos lugares, seguindo pelo contexto e pelo papel que você assume. Em seguida, relate as emoções vivenciadas, a evolução da cena e o desfecho. A preguiça deve ficar de lado: anote todos os detalhes que lembrar.
- A linguagem do inconsciente é sempre alegórica, simbólica. Assim sendo, todos os elementos presentes num sonho (dos personagens aos objetos) não devem ter interpretação literal — tudo faz parte de você e fala de você.
- Ao terminar o relato, tente fazer um exercício livre de associações entre aquilo que vê e as relações que se estabelecem com a vida. Jung chamou esse exercício de amplificação. Por exemplo: ao sonhar com uma colega de trabalho com quem não se tem muito contato, observe quais as principais características que ela transmite. O mesmo vale para os objetos: resgate a história relacionada a eles. Amplificar é buscar sentido diante das imagens que aparecem.
- Não tente encerrar o conteúdo de um sonho, atribuindo um significado único. Quanto mais múltiplo for o sentido, mais valia terá. Se achar interessante, escreva o resultado da amplificação abaixo do sonho.
- Em geral, todos os sonhos da mesma noite têm uma temática comum e, depois de serem analisados individualmente, deverão ser observados como um conjunto conciso. O mesmo vale para aqueles tidos durante um período específico da vida (durante uma viagem, ao fim de uma relação etc.). Dessa forma, o sentido que eles oferecem torna-se mais claro.
- Você quer começar, mas simplesmente não consegue lembrar do que sonhou? Não se aflija. Encare como um exercício. Na medida em que começamos a dedicar tempo para os sonhos, eles tendem a ficar mais limpos, vívidos e vivos na memória.
- A observação continuada dos sonhos, acompanhada por um psicoterapeuta ou analista, é um poderoso instrumento de cura e de desenvolvimento pessoal. O processo promove o autoconhecimento a partir dos elementos vindos do inconsciente.


17 de janeiro de 2013

Sobre os filhos

Dos Filhos (Khalil Gibran)

E uma mulher que carregava o filho nos braços disse: “Fala-nos dos filhos.”
E ele disse:
Vossos filhos não são vossos filhos.
São filhos e filhas da ânsia da vida por si mesma.
Vêm através de vós, mas não de vós.
E, embora vivam convosco, a vós não pertencem.
Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos,
Pois eles têm seus próprios pensamentos.
Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas;
Pois suas almas moram na mansão do amanhã, que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho.
Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis faze-los como vós,
Porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados.
Vós sois o arco dos quais vossos filhos, quais setas vivas, são arremessados.
O Arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com Sua força para que suas flechas se projetem, rápidas e para longe.
Que vosso encurvamento na mão do Arqueiro seja vossa alegria:
Pois assim como Ele ama a flecha que voa, ama também o arco, que permanece estável.



Pouco pode ser acrescentado, Khalil Gibran já nos disse o essencial.
Destrinchar seus ensinamentos em explicações teóricas, racionais e psicológicas é um risco de não falarmos à alma... os lampejos de compreensão, filhos legítimos da linguagem poética, podem ser terrivelmente mutilados e a verdadeira sabedoria alienada por terminologias inférteis...
Pretendo apenas, como mãe de uma menininha de um ano e meio, externar algumas reflexões que hoje, após inúmeros contatos teóricos com a maternidade e a infância, ganharam uma significação totalmente especial.
Li recentemente a seguinte frase, cujo autor desconheço: "Já dizia o mestre: tentar adquirir experiência apenas com teoria é como tentar matar a fome apenas lendo o cardápio".
E assim chego a "matern(a)idade", podendo saborear os doces e amargos sabores deste vasto cardápio, outrora tão folheado.  
Sensibilizada pela analogia feita entre os pais e o arco, entre os filhos e as flechas (ambos instrumentos do Grande Arqueiro) e pela verdade, tão belamente anunciada por Gibran, de que a vida não anda para trás e que sua inexorável mira é a "mansão do amanhã", reflito sobre dois pontos que podem barrar ou liberar a concretização de nossa missão enquanto pais: 

Podeis outorgar-lhes vosso amor , mas não vossos pensamentos,
Pois eles têm seus próprios pensamentos.
   
1- Os padrões de certo e errado durante a infância são indiscutivelmente necessário pois funcionam como uma primeira baliza que poderá favorecer uma maior desenvoltura do exercício futuro do livre arbítrio, que é a escolha individual e intrasferível entre o que se julga como certo ou errado. Escolher, optar significa "matar", sacrificar as diversas possibilidades em favor daquela que é escolhida. A decisão é, portanto, um processo que envolve riscos: o risco de estar errado, o de se responsabilizar, o de se arrepender... A escolha, por conter o germe do erro, é, por si só, um processo difícil, quem dirá para aqueles que aprenderam que errar é algo inadmissível e irremediável. Sendo assim, "...é importante que a autoridade dos pais exprima padrões de certo e errado de maneira suficientemente permissiva ou flexível de modo a não sufocar a capacidade do ego para aprender cometendo seus próprios erros. Quando uma pessoa sente que cometer um erro é um acontecimento catastrófico, é levada a evitar a escolha e a decisão. Assim, o desenvolvimento de uma personalidade individual acaba sendo sufocado" (Whitmont, A Busca do Símbolo - conceitos básico de psicologia analítica, p.245). E estaremos diante de uma fecha que não pode chegar ao seu destino: sair dos padrões de obediência e submissão às figuras de autoridade, estabelecer um padrão interior de certo e errado e vencer o medo de assumir suas escolhas, desfrutando e arcando com as consequências, na tranquilidade de que nada é definitivo e tão drástico ao ponto de nos paralizar.

Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis faze-los como vós,
Porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados.

2- Desde a infância já apresentamos alguns traços de personalidade, possíveis de serem observados quando somos ainda bem pequenos. Nossas preferências, qualidades e características temperamentais encontram na família uma espécie de porto, nem sempre seguro, pois "a alfândega familiar" muitas vezes é bem rígida e não deixa passar nada daquilo que contradiz suas expectativas. O ambiente familiar tem uma influência crucial no processo de ancoragem de nossas habilidades e dificuldades. As expectativas parentais reforçam alguns traços pessoais, recompensam certas qualidades e desaprovam certos interesses e habilidades. Há uma inter-relação entre a criança e seu meio e assim como as expectativas familiares influenciam o desenvolvimento dos traços pessoais, estes também influenciam as expectativas da família. Existe, portanto, uma relação mútua de influência e toda atenção e cuidado são bem vindos aos pais educadores. Se uma determinada característica obtém a aprovação da família, a auto-estima não é abalada, mas a valorização excessiva de um potencial pode levar à unilateralidade e à privação do desenvolvimento de novas potencialidades. Se a família recompensa e encoraja o desenvolvimento daquilo que para a criança é mais natural, ela se sente bem consigo mesma por ter espaço para explorar seus interesses. O oposto acontece quando as características inerentes e a família não caminham juntas. Mas a oposição não muda os sentimentos e interesses mais profundos, apenas faz com que o indivíduo não se sinta bem consigo mesmo por ter os traços e interesses que tem, e se for incentivado a "ser outro e não ele mesmo" o resultado é uma profunda sensação de inautenticidade. Aí estaremos diante de um arco que ao invés de projetar suas flechas para longe, projetou nelas seus anseios, projetos e expectativas, deixando-as demasiadmente "pesadas" para voarem livres na direção que deveriam... 
E como nos ensina Jung, "só aquilo que somos realmente tem o poder de curar-nos", pois é justamente o afastamento de nossa verdade que nos faz adoecer. Sejamos arcos ou flechas, na mão do Grande Arqueiro somos todos filhos e filhas da ânsia da vida por si mesma!




28 de dezembro de 2012

Oração da Serenidade e o processo de autoconhecimento via análise





Concedei-me, Senhor, a serenidade necessária 
para aceitar as coisas que não posso modificar; 
a coragem para modificar aquelas que posso;
 e a sabedoria para distinguir umas das outras


Não há consenso sobre as origens e a autoria da Oração da Serenidade. Mas, sejamos religiosos ou não, pertencentes a esta ou àquela igreja, estas palavras, consideradas como uma prece ou apenas como a expressão de um desejo maior, podem ser como guias para a alma que busca realizar-se em toda sua potencialidade.

Em um contexto terapêutico, elas ganham um brilho especial, pois se no tão valioso e necessário processo de resignificação do nosso passado entendermos e aceitarmos que, de fato, há acontecimentos que não podemos modificar ou controlar, o confronto  com o conteúdo emocional submerso e protegido pelo “esquecimento” deixa de ser um doloroso confronto/ batalha para torna-se um auspicioso confronto/encontro com a nossa real limitação, com o nosso real poder e, consequentemente, com a nossa mais profunda sabedoria.

O pacífico "encontro face a face" com o inconsciente, precioso recinto que contém as respostas que tanto  procuramos, torna-se cada vez mais proveitoso na medida em que compreedermos  que somos, a um só tempo, pequenos e grandes diante dos acontecimentos do nosso passado, do nosso presente e também do nosso futuro. 

Guardião de muitas das respostas que precisamos para seguir fluindo em nossa caminhada de crescimento, o encontro com a nossa verdade realmente depende de serenidade para aceitarmos as coisas que não podemos modificar; de coragem para modificar aquelas que podemos e de sabedoria para distinguir essa daquela. Como diz Sartre "Não importa o que o passado fez de mim. Importa é o que farei com o que o passado fez de mim". E isso nos exige coragem! A vitimização só nos exige passividade e submissão.

A serenidade que podemos experimentar ao nos dedicarmos à conciliação dos opostos (o que posso e o que não posso mudar, por exemplo) é consequência de um tipo bem específico de aceitação: uma que promove não passividade, estagnação ou revolta, mas sim superação, mudança, auto responsabilidade, novos horizontes e perspectivas futuras.  “Afinal, não é apenas o passado que nos condiciona, mas, também o futuro, que muito tempo antes já se encontra em nós e lentamente vai surgindo de nós mesmos.” (Jung, O Desenvolvimento da Personalidade, p. 115)  










1 de dezembro de 2012

O casamento como veículo para o trabalho com a sombra



O livro Ao encontro da sombra (Zweig e Abrams) é uma coletânea de artigos sobre as diversas manifestações do lado escuro da natureza humana: no seio da família, nos relacionamentos íntimos, na sexualidade, no trabalho, na espiritualidade, na política...

No artigo "O encontro do oposto no parceiro conjugal", Maggie Scarf elucida de forma brilhante o quanto as características do nosso eu reprimido podem coincidir (devido a identificação projetiva) com as características do ser amado. Quando nos relacionamos com alguém que é o nosso oposto (passivo/agressivo, introvertido/extrovertido, religioso/ateu, comunicativo/reservado), e isso não é nada incomum!, o parceiro acaba por se tornar o portador de nossas fraquezas, deficiências e aptidões/qualidades latentes. Torna-se, ao mesmo tempo, fonte de atração e repulsão. Inicialmente nos atraímos pela possibilidade de compensação que o outro representa (uma mulher tímida, por exemplo, viverá sua extroversão via marido, permitindo que ele fale por ela) mas, a longo prazo, a não integração dos aspectos que estão latentes em nós e evidentes no outro acarretará uma série de conflitos: estaremos, diariamente, "dormindo com o inimigo", estaremos diante daquele que personificou nossa sombra e que cotidianamente nos expõe à nossas limitações.

 O encontro do oposto no parceiro conjugal

                                                         Maggie Scarf

"Um fato da realidade conjugal, bem conhecido pelos especialistas nessa área, é que as qualidades citadas pelos parceiros como as que primeiro os atraíram um para o outro coincidem com aquelas que são identificadas como as fontes de conflito no decorrer do relacionamento. As qualidades "atraentes" recebem, com o tempo, novos rótulos; tornam-se as coisas más e difíceis do parceiro, os aspectos de sua personalidade e comportamento que são vistos como problemáticos e negativos.
Por exemplo, o homem que se sentiu atraído pelo calor, empatia e fácil sociabilidade da esposa poderá, em algum momento futuro, redefinir esses mesmos atributos como "estridência", "intromissão" e uma maneira "superficial" de se relacionar com os outros. A mulher que inicialmente valorizava o marido pela sua confiabilidade, previsibilidade e pelo senso de segurança que ele lhe oferecia, poderá, ao longo do caminho, condenar essas mesmas qualidades como tediosas, enfadonhas e redutoras. E é assim que os admiráveis e maravilhosos traços do parceiro tornam-se as coisas feias e terríveis que a pessoa gostaria de ter percebido antes! Embora essas qualidades sejam sempre idênticas, em algum momento do relacionamento elas ganham nomes diferentes.
As coisas mais atraentes no parceiro também são, em geral, as que têm maior carga de sentimentos ambivalentes. É por isso que minhas conversas com casais sempre começam do mesmo modo que iniciei a minha entrevista com os Brett, sentados lado a lado à minha frente.  
— Digam-me — perguntei ao jovem casal —, qual foi a primeira coisa que os atraiu no outro?
— Meu olhar passou de Laura, atenta e observadora, para o rosto ligeiramente cansado de seu marido Tom, — O que é que você acha que a fez especial para ele... e você, especial para ela?
Por mais mundana que me parecesse a pergunta, ela provocou no casal a costumeira reação de surpresa e até mesmo de susto. Laura respirou fundo, pegou uma mecha de seus longos cabelos louro-escuro e lançou-a sobre o ombro. Tom parecia estar a ponto de saltar mas, em vez disso, afundou-se ainda mais no macio sofá marrom. Viraram-se um para o outro, com um sorriso; Laura enrubesceu e, então, os dois caíram na risada.
O que ficou claro é que os Brett viam a si mesmos como tipos humanos muito diferentes — como pólos opostos, em muitos sentidos.
Quase no fim da nossa primeira conversa, por exemplo, eu lhes perguntei: — Se alguém que vocês dois conhecem... digamos, um amigo ou uma pessoa da família... estivesse descrevendo o relacionamento de vocês para alguém de fora, o que vocês acham que ele diria?
— Improvável — respondeu Tom de imediato, com um sorriso.
— Improvável? — Por quê? — perguntei. — Ah, sei lá — ele encolheu os ombros —, ler jornal ou ir à igreja, cinismo ou fé em Deus... Eu sou muito lógico e reservado, e a Laura é exatamente o oposto.
Ele hesitou e olhou para Laura, que assentia com a cabeça e mantinha uma expressão ao mesmo tempo compungida e alegre. — Você é calmo e passivo — admitiu ela—, e eu estou sempre acesa, pronta para o que der e vier. — Ele concordou e me disse: — Nós somos diferentes em tudo o que se possa imaginar...
Na verdade, como muitos casais que parecem viver em casamento de opostos, eles estavam lidando com o mais penetrante de todos os problemas conjugais: distinguir quais os sentimentos, desejos, pensamentos, etc. que estão dentro de um e quais os que estão dentro do parceiro.
Esse dilema está relacionado com a demarcação das fronteiras pessoais. A principal causa de angústia nos relacionamentos íntimos e responsáveis é, na verdade, uma confusão básica entre saber exatamente o que está acontecendo na nossa própria cabeça e o que está acontecendo na cabeça do parceiro.
Muitos casais, como os Brett, parecem ser pólos opostos — duas pessoas totalmente diferentes.  São como marionetes num espetáculo: cada um deles desempenha um papel bem diferente do outro na parte do palco que está aberta ao olhar do observador objetivo; mas, fora  da vista, os cordões das marionetes se emaranham. Eles estão profundamente enredados e emocionalmente interligados, abaixo do nível da percepção consciente de cada um. Pois cada um deles incorpora, carrega e expressa pelo outro os aspectos reprimidos do eu (o ser interior) do outro.
Examinando o relacionamento dos Brett, o que parecia estar ocorrendo era uma divisão emocional do trabalho. Era como se aquele casal tivesse tomado certos desejos humanos, atitudes, emoções, modos de se relacionar e se comportar — uma vasta gama de sentimentos e reações que poderiam ser partes integradas do repertório de uma pessoa — e os repartisse à moda do "eu fico com isto e você fica com aquilo".
 Como a maioria dos casais, eles fizeram essa "partilha" por meio de um acordo inconsciente, não-verbalizado mas muito eficaz. No seu relacionamento, Laura ficava com o otimismo e Tom com o pessimismo; ela acreditava em tudo, ele era o cético; ela queria abertura emocional, ele queria guardar-se para si mesmo; ela se aproximava e ele se afastava — o homem fugindo da intimidade. Juntos, formavam um organismo adaptativo plenamente integrado; só que Laura tinha que cuidar de toda a inspiração e Tom, de toda a expiração.
No entanto, se Laura, no palco, parecia querer total intimidade, honestidade, integridade e unidade, fora do palco ela e Tom tinham realmente um acordo. Sempre que ela tentava aproximar-se dele, o cordão da autonomia de Tom era ativado e ele era impelido — de um modo quase reflexo — a se afastar de imediato. Ela dependia dele para preservar o espaço necessário entre ambos.
Pois Laura, como qualquer outra pessoa, precisava de alguma autonomia própria — algum território pessoal no qual ela pudesse ser uma pessoa por direito próprio, buscar seus próprios desejos e objetivos individuais. Mas para Laura, satisfazer suas próprias necessidades independentes era percebido como algo errado e perigoso — algo que uma mulher adulta sadia não faz. Para ela, o papel certo, como mulher, era concentrar-se em permanecer próxima, no relacionamento; ela não conseguia reconhecer suas necessidades autônomas como algo que existia dentro dela, algo que ela realmente queria. Ela só tinha consciência das necessidades do eu (o eu separado e independente) na medida em que essas necessidades existiam no parceiro e eram expressadas pelo parceiro.
Do mesmo modo, o desejo natural de Tom de se aproximar intimamente de outra pessoa era uma necessidade que ele via, não dentro de si mesmo, mas como algo que basicamente existia em Laura. A necessidade de estar próximo de sua parceira, no contexto de um relacionamento confiante e mutuamente revelador, era vista como necessidade dela.  Tom nunca sentia isso como um desejo ou uma necessidade que se originava dentro do seu próprio ser, Ele era, a seus próprios olhos, auto-suficiente; ou seja, ele bastava a si mesmo.
Mas, ao mesmo tempo em que Laura dependia de Tom para se afastar quando ela se aproximava, Tom dependia de Laura para tentar a aproximação a fim de se sentir necessário e desejado — íntimo.
Em lugar de expressar diretamente qualquer desejo ou necessidade de intimidade (ou mesmo conscientizar-se desses desejos e sentimentos e assumir a responsabilidade por eles), Tom precisava dissociá-los de sua consciência. Esses pensamentos e desejos o faziam sentir-se demasiado exposto, demasiado vulnerável! Quando queria proximidade, ele precisava sentir esse desejo como se viesse da esposa; ele precisava assegurar-se, sem qualquer reconhecimento consciente do que estava fazendo, de que o "cordão" da intimidade de Laura era puxado. Uma maneira de fazê-lo, talvez, seria adotar um ar sentimental e abstraído para que ela ficasse a se perguntar se ele não estaria pensando em Karen. E então Laura iria persegui-lo ansiosamente... em busca do intercâmbio íntimo que ele próprio desejava.
O que acontecia no relacionamento desse casal é extremamente comum nos casamentos em geral. O conflito que os dois parceiros estavam enfrentando — um conflito entre querer satisfazer suas próprias necessidades individuais e querer satisfazer as necessidades do relacionamento — foi dividido igualmente entre eles. Em vez de serem capazes de admitir que ambos queriam intimidade e que ambos queriam buscar seus próprios objetivos independentes — ou seja, que o conflito autonomia/intimidade era um conflito que existia dentro da cabeça de cada um — os Brett, inconscientemente, fizeram esse acordo secreto.
Laura nunca precisaria assumir conscientemente sua necessidade de um espaço pessoal; Tom nunca precisaria admitir para si mesmo seu próprio desejo de ser emocionalmente aberto, confiante e íntimo. Ela carregava, pelos dois, a necessidade de intimidade (necessidade do relacionamento). Ele carregava, pelos dois, a necessidade de autonomia (a necessidade que cada pessoa tem de perseguir seus objetivos individuais). Laura, portanto, sempre parecia querer estar um pouco mais perto e Tom sempre parecia querer estar mais distante e desimpedido.
O resultado foi que, em vez de um conflito  interior (algo que existia dentro do mundo subjetivo de cada um), o dilema desse casal tornou-se um conflito interpessoal — um conflito que teria de ser constantemente travado entre eles.
Essa transição de um problema intrapsíquico (ou seja, um problema dentro da mente de um indivíduo) para um conflito interpessoal (ou seja, uma dificuldade que duas pessoas enfrentam) ocorre por meio da identificação projetiva.
Esse termo refere-se a um mecanismo mental muito penetrante, traiçoeiro e geralmente destrutivo, que envolve a projeção dos aspectos negados e reprimidos da experiência interior de uma pessoa sobre o seu parceiro íntimo e, a seguir, a percepção desses sentimentos dissociados como existentes no parceiro. Não apenas os pensamentos e sentimentos indesejáveis são vistos como estando dentro do parceiro, como também o parceiro é encorajado, por meio de "deixas" e provocações, a comportar-se como se eles lá estivessem! E então a pessoa identifica-se indiretamente com a expressão, pelo parceiro, das emoções, pensamentos e sentimentos reprimidos.
Um dos melhores e mais claros exemplos do modo como a identificação projetiva opera é mostrado pelo homem totalmente não-agressivo e que jamais se enraivece. Esse homem, que é singularmente destituído de raiva, só pode perceber os sentimentos de raiva à medida que eles existem numa outra pessoa — na esposa, é mais provável. Quando algo perturbador acontece a esse homem que jamais se enraivece, e ele experimenta emoções de raiva, ele não terá um contato consciente com elas. Ele não vai saber que está com raiva, mas ai ficar muito feliz se detonar uma explosão de hostilidade e raiva na esposa.
A esposa, que talvez não estivesse sentindo raiva alguma antes da interação, de repente descobre que está dominada pela raiva; na verdade, sua raiva, que parecia dever-se a qualquer outro motivo, é a raiva que está sendo vivida pelo marido. Num certo sentido, com isso ela está "protegendo" o marido contra certos aspectos do seu ser interior que ele não consegue assumir e admitir conscientemente.
O marido que jamais se enraivece pode então se identificar com a expressão, pela esposa, da raiva que ele reprimiu sem jamais precisar assumir responsabilidade pessoal por essa raiva — nem mesmo em termos de se conscientizar do fato de que, para começar, quem estava com raiva era ele! E é muito frequente que os sentimentos de raiva, reprimidos com tanta firmeza dentro do eu, sejam criticados no parceiro com a mesma severidade, Numa situação de identificação projetiva, o marido que jamais se enraivece geralmente se horroriza diante do temperamento violento e das expressões e comportamentos impulsivos e descontrolados da mulher!
Do mesmo modo, a pessoa que jamais se entristece talvez só veja suas próprias depressões à medida que elas se expressam no parceiro (que, nessas circunstâncias, é visto como a pessoa que carrega a tristeza e o desespero por ambos).
De modo geral, as projeções tendem a ser  intercâmbios  — um "comércio" de partes reprimidas do eu, que os dois membros do casal concordam em fazer. E, então, cada um deles vê no outro as coisas que não consegue perceber em si mesmo... e luta, incessantemente, para mudá-las".