Este é um espaço para a reflexão de temas que em algum momento e por alguma razão (do meu contexto pessoal ou da minha prática clinica) se tornaram, usando uma expressão gestáltica, importantes FIGURAS no imenso FUNDO existencial.

2 de maio de 2013

Fidelidades perversas e traições leais

 

    Venho hoje refletir sobre uma situação da qual ninguém, ou ao menos aqueles que já a experimentaram, sente disposição para relembrar. Assunto delicado, tão assustador e pungente, tão presente e ao mesmo tempo negligenciado por nossa vida consciente. Relegado ao esquecimento, ao inconsciente e normalmente associado a vergonha, a vingança e a culpa; mas nunca ao crescimento e autoconhecimento.
   Motivada por algumas leituras (Bonder, Carotenuto, Hollis) e, de certa forma, pela lógica "nelsonrodriguiniana" de que devemos ver a vida "tal como ela é", sinto-me impelida a refletir sobre aqueles momentos em que fomos ou nos sentimos traídos, abandonados, trocados... e tantos outros verbos que compõem a cena dolorosa da traição.
    Claro que essa palavras podem assumir uma forma adjetiva (mulher rejeitada, homem traído, mulher abandonada), mas insistir que no drama da traição o melhor é concebe-las como verbos é ressaltar um ponto central, que faz toda a diferença: tanto "eu" quanto "ele" ou "ela" traímos, abandonamos e rejeitamos. Quer queiramos ou não reconhecer, somos todos sujeitos destas ações, ao menos em potencial. E estamos todos sujeitos a elas. Tendo sido eu ou não "o agente do verbo" trair, a realidade é que não há nesta vivência dolorosa '"sujeito agente ou paciente", "passivo ou ativo", vítima ou algoz. Ambos são, a um só tempo, agentes e vitimas de um desencontro que desembocou numa traição. Nesse sentido, Hollis afirma que:
"A pílula mais amarga na traição pode ser reconhecermos relutantemente, amiúde anos depois, que nós fizemos parte do balé conivente que com o tempo provocou a traição. Se conseguirmos engolir esta amarga pílula, teremos uma sensação bem mais ampla de controle da nossa sombra. Nem sempre iremos gostar do que seremos intimados a reconhecer. (...) Mas a partir dessa amarga erva, muita consciência evolui" (Hollis, em "Os pantanais da Alma", p.67). 
    Carotenuto, num livro com título um tanto provocador ("Amar, trair: quase uma apologia da traição"), defende o mesmo ponto de vista:
"A verdade é que a traição não pode ser atribuída a um só dos componentes do casal; em certo sentido, traído e traidor recitam um texto preciso, no qual, porém, cabe ao traidor a parte mais onerosa. Ele deve assumir a responsabilidade de preparar as bases para uma revisão e dissolução de uma relação que já perdeu toda razão de ser. Muitas vezes o traído já há muito pressentia o drama, mas sentia necessidade de negá-lo, porque investira tudo na outra pessoa" (Carotenuto, p. 132) 
     Falar da dor da traição é, portanto, falar da dor em reconhecer que o outro, aquele que me machuca, também é uma faceta minha e que com sua ação ele está comunicando algo sobre mim mesma, sobre ele e sobre a nossa relação.
   Identificar-se apenas com a vítima é o mesmo que solapar a possibilidade de ampliação da consciência e transformação. O traidor é, na verdade, o executor de algo que o traído, mesmo inconscientemente e diante de todas as suas repressões, também é capaz de fazer, mental ou concretamente. Somos todos hospedeiros de luz e sombra, das infinitas polaridades e possibilidades humanas, quer concretizemo-las ou não. O reconhecimento da nossa capacidade de também trair não nos habilita apenas ao perdão, mas sobretudo à libertação da dor e do ressentimento; condição necessária para que possamos seguir, com o mesmo parceiro ou numa nova relação.
    Na medida em que saímos da identificação rígida com apenas um dos polos (sou o traído, sou o traidor) abrimos a possibilidade de adentrar num território de possível crescimento pessoal e conjugal. Conseguir, diante de uma situação de traição, transitar entre os dois "lugares" é valorizar que, para além de vítima ou culpado, há, implícito à traição, algo muito mais importante, uma espécie de alerta: a infelicidade ou a insatisfação encontraram um jeito, talvez o pior, de se abrandarem. Insatisfação comigo mesmo (daí a necessidade, às vezes compulsiva, de uma terceira pessoa que me reafirme, que me regozije) ou com a relação.
    É sobre esta última motivação que pretendo me delongar. A primeira (insatisfação consigo próprio, insegurança, baixa autoestima e ect) conduziria a discussão sobre traições para outros rumos.
   Trair por descontentamento com a relação é o mesmo que fugir de um lugar onde estamos nos sentido "apertados", comprimidos.  É claro que esta não é a única ou melhor solução, pois um novo relacionamento, mas cedo ou mais tarde, desembocará novamente num "lugar apertado", onde dois corpos (leia-se subjetividades) mais uma vez se depararão com a real dificuldade de ocuparem um mesmo espaço... dois mundos espremidos!
   Nilton Bonder, em "A Alma Imoral", descreve quatro possíveis comportamentos que normalmente assumimos quanto estamos diante da necessidade de sair do "lugar estreito". Lugar que outrora serviu para nosso desenvolvimento e satisfação, mas que em um determinado momento (e por vários motivos) se tornou apertado e limitador:

  1º- Recuar: resolvemos, finalmente, sair do "lugar estreito", mas diante da força do hábito e do medo da mudança, preferimos recuar e ali permanecemos, mesmo que descontentes. A consequência: desacreditamos no novo e passamos a concebê-lo apenas com uma ilusão. É, em outras palavras, a conformidade com a realidade e com as limitações que ela impõe.
  2º- Lutar: é a crença de que se poderá fazer do  próprio lugar estreito um lugar mais amplo. A premissa é que jamais deve-se esquecer que o lugar estreito um dia não o foi.
 3º- Desesperar-se: é a crença na intransponibilidade do "lugar estreito" que gera desesperança no futuro. "Desse desespero surge a resignação de que, apesar de não se voltar ao lugar estreito, jamais se poderá atingir um novo lugar amplo" (Bonder, p.48).
  4º- Orar: é a crença de que a mudança pode acontecer sem uma nova definição de si, do outro e da relação. É a inútil esperança de que a realidade pode vir a se tornar mais compassiva sem a remodelação necessária.

    Apesar de Bonder ter concluído que nenhuma das quatro são alternativas válidas para uma verdadeira superação do "lugar estreito", acredito que o segundo comportamento (lutar) é uma possibilidade legitima de superação da problemática do estreitamento quando o "lugar estreito" em questão é um casamento. Bonder trabalhou com um conceito mais amplo de estreiteza, mencionou lugares estreitos que nem sempre são passiveis de "alargamento" pela luta. Mas quando o assunto é relacionamento, às vezes, "o comportamento de luta" pode, de fato, assumir uma forma positiva e altamente transformadora. Nesses casos, "lutar" para fazer do próprio lugar estreito um lugar mais amplo me parece o mesmo que  reconhecer que a traição (a fuga) não se configura como uma alternativa duradoura. Como dito anteriormente, nenhum lugar poderá ser amplo para sempre. O ponto de equilíbrio não é estático e é na aceitação e envolvimento consciente com a  força constante da tensão entre os opostos que o equilíbrio pode ser repetidamente reconquistado.
     Apesar da pertinente associação  da traição à fuga, essa é uma meia verdade, é apenas uma possibilidade associativa dentre várias outras. Se não tivermos medo de olhar as coisas pelo "lado escuro" ou avesso, é possível reconhecer que apesar da traição não ser uma solução, em alguns casos, ela pode se configurar como uma tentativa de renascimento, de revitalização. "Se o outro (...) é aceito somente enquanto corresponde à expectativa, é claro que, na vida de casal, cada um é delimitado em um papel, e não pode sair dele. A traição pode ser lida, portanto, não só como abandono do outro, mas também como tentativa irada de reconhecimento daquelas partes de si sufocadas na relação" (Carotenuto, p.135).
   Para não cairmos numa espécie de apologia à traição ou defesa aos traidores, é fundamental frisar que as motivações são diversas e distintas em cada caso particular. Atribuímos importância excessiva ao ato exterior e diminuímos a importância do estado interior; a manifestação exterior é secundária quando queremos considerar a raiz do problema (Palestra Pathwork nº 74 - Confusões duvidosas e motivações nebulosas). Então, para além da moral, do certo ou errado, bonito ou feio, o ponto central é discernir se a traição corresponde a um movimento/desejo de crescimento ou é apenas expressão de confusão destruidora, narcisista, vingativa e infantil. Cometê-la sem interrogar-se sobre a qual inquietação ela se refere é o mesmo que permanecer inconsciente dos limites (pessoais ou relacionais) que tem perturbado a possibilidade de se manter numa relação estável e duradoura. É ficar eternamente sujeito ao ciclo nada transformador de insatisfação-traição. Essas reflexões são importantíssimas quando há uma compulsão à trair, uma busca cega "sabe-se lá do que", um padrão repetitivo que nada tem a ver com a procura madura e consciente de auto realização. O donjuanismo e o coquetismo são, inegavelmente, desastrosos sintomas que precisam ser melhor compreendidos.  Como ressalta Bonder, esse tipo de infidelidade, esse "tipo de traidor" não age em função da necessidade de romper com uma situação externa disfuncional; mas sim, no sentido de perpetuar uma situação interna (psicológica) disfuncional. Suas ações são mais do que uma traição ao outro; eles traem, acima de tudo, a própria alma (psique), o próprio crescimento. Quando o Self nos "convida" à transgressão, ela inevitavelmente  se configura como um passo em direção à saúde, ao crescimento, à expansão. Quando o convite é feito pelo ego, ou por partes sombrias de nossa psique, a transgressão é apenas um ato de manutenção de patologias.  
    Em meio às reflexões sobre infidelidade é necessário também falar do seu oposto: a fidelidade. Retomo Bonder: a infidelidade é tanto o rompimento de compromissos quanto a manutenção dos mesmo de forma destrutiva, pois há fidelidades perversas e traições de grande lealdade. Há de se considerar que "...é possível que uma pessoa não cometa jamais uma ato de infidelidade, mas as motivações de sua 'fidelidade' podem ser tão doentias e imaturas quanto as motivações que levariam a pessoa a ser infiel externamente. A fidelidade exterior pode não ser fidelidade verdadeira. Portanto, o ato exterior fora de contexto e por si mesmo não pode ser adequadamente avaliado" (Palestra Pathwork nº 74 - Confusões duvidosas e motivações nebulosas) 
    Assim sendo, o que é ser fiel? É necessário ser fiel! É isso que aprendemos, é isso que desejamos quando entramos num relacionamento e é o que prometemos. Mas é necessário ser fiel ao quê? Ao outro? Acredito, assim como Bonder, Hollis, Carotenuto e tantos outros, que se deve, acima de tudo, ser fiel ao crescimento psicológico pessoal. E para isso preciso, necessariamente, trair ao outro? Na verdade não é ao outro que devemos trair, mas sim ao padrão de relacionamento, à zona de conforto. À suposta zona de conforto, aquele "lugar apertado" demais para os anseios do Self, mas vivido pelo ego como confortável, seja por medo da mudança ou pelo apego aos "ganhos secundários" de se permanecer numa relação, ainda que medíocre. Quem realmente devemos trair é o hábito, o medo, a rotina, a estreiteza, os pactos disfuncionais inconscientemente estabelecidos entre os cônjuges...
    Aparentemente é muito mais fácil tentar resgatar fora aquelas coisas que foram perdidas (ou vetadas) dentro de uma relação intima. Bonder bem ilustra essa dificuldade de fazer coincidir crescimento pessoal e crescimento conjugal:
"Observemos um casal que vive uma relação de casamento. O desequilíbrio maior surge quando um dos dois dá um passo à frente em direção à sua vida. Esse passo, que é muito transgressivo em relação à sua situação acomodada, deveria gerar um passo também no cônjuge  Se isso acontecesse, ambos estariam equilibrados e sua dinâmica seria natural. No entanto, o que mais acontece como reação a um passo à frente é que o outro dá um passo para trás. O desequilíbrio então se estabelece e uma situação não-dinâmica atravanca o processo vital. A maioria dos casamentos termina pela ocorrência desse ato reflexo. Quando um cônjuge esboça transformações em sua pessoa, implicando em transformações na relação, o outro muitas vezes cobra justamente os compromissos assumidos, dando um passo para trás. Não reconhece que seus direitos de apego não têm o menor valor numa relação em que o compromisso explícito é o relacionamento. Se, numa relação, alguém se modifica, o pacto é este: todos devem se colocar em movimento. A reação de dar um passo para trás - expondo carências, coletando justificativas ou evocando direitos - é um apego que, em si, é a maior das traições ao sonho assumido em pacto" (Bonber, p.31).
   São os curtos caminhos longos, nos quais a obediência acaba por significar desrespeito e a desobediência respeito (Bonder). A porta de saída dessa situação perversa me parece ser o diálogo, a forma mais transgressiva de lutar pela manutenção do que vale a pena é o casamento entre uma expressão sincera e um ouvinte corajoso e aberto. Mas a base para qualquer comunicação verdadeira e profunda é a auto observação e o auto conhecimento. Se dançávamos valsa e agora sei que o que me apetece é dançar tango, nada mais natural do que avisar ao parceiro e perguntar se ele topa experimentar esse novo ritmo. Do contrário, o velho misoneísmo (aversão a mudanças e hostilidade para com o novo) ganha a cena e o descompasso se instaura, as pisadas no pé se tornam quase que inevitáveis e a dança perde toda a sua beleza e sentido. Se conheço apenas superficialmente minhas motivações, vontades e necessidades como posso expressá-las a contento?  É a consciência do locutor/emissor que funciona como esteio para que a revelação autêntica possa florescer. É a consciência do interlocutor/receptor que permitirá, tal como um solo fértil, receber o florescimento de uma verdade alheia. E nessa arte de restaurar a dinâmica vital temos que correr riscos e transgredir algumas convenções, acreditar que "há um olhar que sabe discernir o certo do errado e o errado do certo. Este olhar é o da  alma" (Bonder).
 



   



17 de março de 2013

Leonardo Boff fala de Jung

Leonardo Boff coordenou junto à Editora Vozes a tradução da obra de C.G. Jung (18 tomos). No vídeo "Leonardo Boff fala de Jung", aqui dividido em três partes, ele nos apresenta as relações entre a psicologia analítica e a espiritualidade. Vale a pena assistir!


Parte 1:


Parte 2:

                                  



Parte 3:


2 de março de 2013

A justa medida de valorização do nosso passado, presente e futuro

  

                                            Relógios Moles ou a Persistência da Memória - Salvador Dali -1931

Um pouco de Schopenhauer, que é frequentemente citado por Jung, para iniciar a reflexão:


Só o Presente é Verdadeiro e Real
Um ponto importante da sabedoria de vida consiste na proporção correta com a qual dedicamos a nossa atenção em parte ao presente, em parte ao futuro, para que um não estrague o outro. Muitos vivem em demasia no presente: são os levianos; outros vivem em demasia no futuro: são os medrosos e os preocupados. É raro alguém manter com exatidão a justa medida. Aqueles que, por intermédio de esforços e esperanças, vivem apenas no futuro e olham sempre para a frente, indo impacientes ao encontro das coisas que hão de vir, como se estas fossem portadoras da felicidade verdadeira, deixando entrementes de observar e desfrutar o presente, são, apesar dos seus ares petulantes, comparáveis àqueles asnos da Itália, cujos passos são apressados por um feixe de feno que, preso por um bastão, pende diante da sua cabeça. Desse modo, os asnos vêem sempre o feixe de feno bem próximo, diante de si, e esperam sempre alcançá-lo. Tais indivíduos enganam-se a si mesmos em relação a toda a sua existência, na medida em que vivem ad interim [interinamente], até morrer. Portanto, em vez de estarmos sempre e exclusivamente ocupados com planos e cuidados para o futuro, ou de nos entregarmos à nostalgia do passado, nunca nos deveríamos esquecer de que só o presente é real e certo; o futuro, ao contrário, apresenta-se quase sempre diverso daquilo que pensávamos. O passado também era diferente, de modo que, no todo, ambos têm menor importância do que parecem. Pois a distância, que diminui os objetos para o olho, engrandece-os para o pensamento. Só o presente é verdadeiro e real; ele é o tempo realmente preenchido e é nele que repousa exclusivamente a nossa existência. Dessa forma, deveríamos sempre dedicar-lhe uma acolhida jovial e fruir com consciência cada hora suportável e livre de contrariedades ou dores, ou seja, não a turvar com feições carrancudas acerca de esperanças malogradas no passado ou com ansiedades pelo futuro. Pois é inteiramente insensato repelir uma boa hora presente, ou estragá-la de propósito, por conta de desgostos do passado ou ansiedades em relação ao porvir.
Arthur Schopenhauer, in 'Aforismos para a Sabedoria de Vida' (retirado do site www.citador.pt)

    Este trecho do "Aforismos para a sabedoria da vida" me inspirou a refletir sobre a atenção que devemos, durante a análise e no próprio cotidiano, despender ao nosso passado, presente e futuro. 
   A psicologia junguiana adota um ponto de vista teleológico, o que significa dizer que em sua investigação do sofrimento psíquico os propósitos, objetivos e finalidades intrínsecas ao desequilíbrio emocional são mais ou tão importantes que as causas. Ou seja, para além da preocupação com os "por ques" (as razões dos conflitos), a psicologia junguiana também considera o "para que" (o propósito de mudança implícito em todos os conflitos). Sondar o sentido oculto e o propósito subjacente às experiências vividas (no passado e no presente) torna-se, nesta perspectiva, mais promissor e libertador do que apenas buscar as causas, pois nem o presente, nem o futuro são simplesmente resultados do passado, são, acima de tudo, consequências de decisões conscientes tomadas no aqui-agora.
   Jung questionava a causalidade como princípio de explicação na psicologia. Alegava que as relações de causa e efeito, quando consideradas como o único fator capaz de explicar os meandros do funcionamento psíquico de uma pessoa, podem conduzir a uma compreensão demasiadamente redutiva. Somos criativos e mutáveis o suficiente para não nos reduzirmos ao "que nos aconteceu" ou ao que "fizeram conosco". A ideia mestra é a de que não somos exatamente, ou simplesmente, o que nos aconteceu; somos, acima de tudo, o que escolhemos ser.
   "Jung usava a palavra 'redutivo' para descrever o aspecto central do método, de Freud, de tentar revelar as bases ou raízes primitivas, instintivas e infantis da motivação psicológica" (Dicionário Crítico de Análise Junguiana - http://www.rubedo.psc.br/dicjung/verbetes/mesinred.htm). E apresentava-se crítico a este método pois, a partir dele, o significado pleno do produto inconsciente (os sintomas, sonhos, imagens, lapsos da fala, etc) não podia ser revelado. "Ligando um produto inconsciente ao passado, seu valor presente para o indivíduo pode se perder" (idem).
   Em contrapartida, e considerando que Jung não rejeitava a importância de analisar o passado e a infância, sua proposta é a de que ao invés de supervalorizar a busca das supostas causas de uma determinada situação, considerando-a como a única fonte de repostas/soluções; devemos nos concentrar na investigação do onde a vida de uma pessoa, tal como ela está sendo vivida no aqui-agora, a está conduzindo. Essa perspectiva, teleológica, era chamada por ele de "sintética". Para o método sintético, os fenômenos psicológicos são considerados como tendo uma intenção, um propósito específico, ou seja, são abordados em termos de sua orientação para um objetivo.
   A unilateralização, e seus malefícios, é uma ideia amplamente trabalhada por Jung e sinteticamente significa a atitude de polarizar ou extremar um ponto de vista. No contexto da presente discussão, é de grande valia considerar esta perspectiva de que não devemos nos enrijecer em certezas e congelar em determinadas opiniões/atitudes, pois as abordagens redutivas e sintéticas são ambas válidas e podem e devem coexistir.
   Passado, presente e futuro possuem um valor relativo. Dependendo do momento em que estamos na compreensão de nossa vida e de nossa situação atual, um ou outro deverá ser melhor considerado, sem perder de vista que mesmo que o ponto de partida da análise seja o passado ou o futuro, o ponto de chegada é sempre o presente. Como asseverou Schopenhauer, só ele é real, "é o tempo realmente preenchido e é nele que repousa exclusivamente a nossa existência".
   Selecionei algumas citações de Jung feitas na conferência "As etapas da Vida" (volume "A natureza da psique") para complementar e suscitar novas reflexões sobre a forma como devemos nos relacionar (conduzir, contemplar, aceitar, integrar, refletir, trabalhar etc) com os fatos marcantes do nosso passado e presente e com as ligações entre ambos e nosso futuro:
"Quem se protege contra o que é novo e estranho e regride ao passado está na mesma situação neurótica daquele que se identifica com o novo e foge do passado. A única diferença é que um se alheia do passado e o outro do futuro. Em princípio, os dois fazem a mesma coisa: mantêm a própria consciência dentro de seus estreitos limites, em vez de fazê-la explodir na tensão dos opostos e construir um estado de consciência mais ampla e elevada" no aqui-agora (acréscimo meu) (p.343).
"Todos os distúrbios neuróticos, bastante frequentes, da idade adulta têm em comum o fato de quererem prolongar a psicologia da fase juvenil para além do limiar da chamada idade do siso" (p.346).
"O neurótico é, antes, alguém que jamais consegue que as coisas corram para ele como gostaria que fossem no momento presente, e, por isso, não é capaz de se alegrar com o passado" (p.346).
"Não podemos viver a tarde de nossa vida segundo o programa da manhã, porque aquilo que era muito na manhã, será pouco na tarde, e o que era verdadeiro na manhã, será falso no entardecer. (...) Por isto, a tarde da vida humana deve ter também um significado e uma finalidade próprios, e não pode ser apenas um lastimoso apêndice da manhã da vida" (p.348, 349).
    E para finalizar:
"(...) tenho observado que uma vida orientada para um objetivo em geral é melhor, mais rica e mais saudável do que uma vida sem objetivo, e que é melhor seguir em frente acompanhando o curso do tempo, do que marchar para trás e contra o tempo. (...) o velho que for incapaz de se separar da vida é tão fraco e tão doentio quanto o jovem que não é capaz de construi-la" (p.351).


  

24 de fevereiro de 2013

"Mas o que, exatamente, esperar da análise? Como ela funciona?" Ou "A relação terapêutica analista e paciente"



"Cada um de nós espontaneamente evita encarar seus problemas, enquanto possível; não se deve mencioná-los, ou, melhor ainda, nega-se sua existência. Queremos que nossa vida seja simples, segura e tranquila, e por isto os problemas são tabu. Queremos certezas e não dúvidas; queremos resultados e não experimentos, sem entretanto nos darmos conta de que as certezas só podem surgir através da dúvida, e os resultados através do experimento. Assim, a negação artificial dos problemas não gera a convicção; pelo contrário, para obtermos certeza e claridade, precisamos de uma consciência mais ampla e superior. (...) Quando temos de lidar com problemas, instintivamente nos recusamos a percorrer um caminho que nos conduz através da obscuridade e indeterminações. Queremos ouvir falar somente de resultados inequívocos e nos esquecemos completamente de que os resultados só podem vir depois que atravessamos a obscuridade. Mas, para penetrar na obscuridade, devemos empregar todo o potencial de iluminação que a consciência nos oferece" (Jung, A natureza da psique, p.338/9, grifos meus).

    E é assim que, muitas vezes, chegamos à análise: decididos a olhar para os probelmas, mas ainda impregnados por algumas crenças ingênuas e bastante perniciosas. A de que há uma receita universal e imediata para a libertação da dor e do conflito que nos reportará automaticamente para um território seguro, tranquilo e feliz sem termos que adentrar no âmago da dúvida e das incertezas, morada inequívoca das respostas norteadoras. A de que há um "Outro Mágico" capaz de nos agraciar com a "salvação", alguém que terá prontamente as repostas certas, que fará magicamente nossa vida funcionar e que nos poupará, para aproveitar as palavras supracitadas de Jung, de todas as dúvidas, obscuridades e indeterminações.  
    Chegamos nos perguntando, e também ao analista, qual o caminho inequívoco a ser seguido, quais técnicas e quais procedimentos garantirão a simplicidade, segurança e tranquilidade tão almejadas. Chegamos ansiosos pelo encontro com as certezas, com os resultados e esperamos, ingenuamente, uma receita. 
    Mas é preciso compreender que a terapia é um passeio socrático (leia-se dialético) pelos terrenos obscuros, duvidosos e indeterminados da psique. O caminho e a direção que cada processo deve seguir vão sendo gradualmente iluminados pela consciência, que tendo como guia o Self Terapêutico, é capaz de visitar e clarear os lugares-chaves, que são totalmente particulares, individuais e historicamente determinados. 
    Os terapeutas que não estão identificados com a projeção do "Outro Mágico", bem sabem que os mapas (leia-se teorias, conceitos e técnicas) não são capazes de garatir a segurança (ilusória!) de que o trajeto a ser percorrido já é, de antemão, dado e totalmente conhecido. Não há um modelo universal de intervenção nem um protocolo invariavelmente aplicável, assim como não há um ser humano igual ao outro. Ainda que o sofrimento seja o mesmo (perda, luto, medo...) sua gênese, seu desenrolar e seu desfeche são sempre individuas.
    Jung não almejava à universalidade pois partia sempre da multiplicidade de subjetividades e via sua própria teoria psicológica como uma possibilidade, uma perspectiva, uma resposta possível (Maroni em Jung: o poeta da alma). 
    A "viagem ao interior de si mesmo", empreendida na parceria e em cumplicidade com o analista, é tão humana e imprevisível que reduzi-la à técnica prejudica não só o destino da viagem e o alcance do ponto de chegada que esta jornada pode conduzir, como todo o seu percurso. 
"A técnica é sempre um esquema sem alma e quem considera a psicoterapia como simples técnica corre, no mínimo, o perigo de cometer erros irreparáveis. Um médico consiencioso deve ser capaz de duvidar de todas as suas técnicas e teorias, caso contrário cai nas malhas do esquema. Mas, esquema significa estupidez e inumanidade. (...) A regra fundamental do psicoterapeuta é considerar cada caso como novo e único. Assim se chega mais próximo da verdade. Lidar com material psíquico requer grande tato e sensibilidade quase artística. Sem isto é muitas vezes difícil distinguir entre o que tem valor e o que não tem." (Jung, Civilização em transição, p.159). 
    Como afirma Condé, no texto que me inspirou estas reflexões intitulado "Para que serve uma psicoterapia", um mapa não pode ser concebido como sendo o próprio território, pois nele sempre existirá aquelas paisagens, cavernas, picos e encruzilhadas ainda não cartografadas. 
    E prossigo reproduzindo um trecho deste texto, que me foi enviado por e-mail por uma amiga psicóloga e por isso não tenho como especificar melhor a fonte. Mas são palavras que se afinam com meu pensar e que tocam em pontos essenciais da clinica junguiana e humanista. São ideias base que norteiam a prática analítica e que podem ser facilmente reconhecidas por aqueles familiarizados com a obra e pensamento de Jung.
"Mapas podem ajudar, mas também limitam as infinitas possibilidades contidas em um relacionamento, cujo território se amplia e aprofunda sempre que há um encontro entre dois ou mais seres sinceramente interessados na cura da alma (psiquê). (...) Acredito que um terapeuta não deve se tornar refém de seus mapas conceituais. Ele pode escolher estar pronto para esquecer deles em sua prática. Ele pode optar livremente e permanecer aberto para descer ao território do encontro, para ali estar simplesmente presente, sem temas preconcebidos, sem uma intenção de caminho certo a seguir. Aquietar-se e estar disposto a estar ali, presente à relação e a espera que de que “algo” se apresente para ambos. Intuir é possível na relação quando o terapeuta está sentindo uma simpatia com os sentimentos do seu cliente. Intuir não vem de uma idéia preconcebida percebida como adequada à uma situação. Surge no presente de uma relação quando algo sensível, que se encontra aí, querendo vir a tona, pode ser enfim aceito e reconhecido. Seja o que for é legitimo e pede algo à sensibilidade atenta de ambos" (Condé).
     Como disse Jung: "Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana". A análise é um encontro entre dois seres humanos e não entre uma técnica/teoria  e um objeto de estudo. Mesmo que optemos por usar a terminologia científica e falemos em "objeto", ainda assim, há de se considerar que o objeto da terapia não é a neurose (adoecimento ou desequilíbrio psíquico mas sim a pessoa que tem a neurose. O foco é a totalidade da pessoa que sofre e esta perspectiva exige que a totalidade do analista também se faça presente, e não apenas sua teoria. Em "A situação atual da psicoterapia" (Jung, Civilização em transição), Jung alerta sobre a necessidade de equilíbrio entre, o que chamarei aqui de, "coração e cérebro". Em suas palavras:

 
"É louvável que o médico tente ser o mais objetivo e impessoal possível e se esforce por não imiscuir-se na psicologia do paciente qual salvador miraculoso; o artificialismo nesta relação traz, porém, consequências perniciosas. Por isso não poderá ultrapassar impunimente os limites da naturalidade. Daria, assim, um péssimo exemplo ao paciente que não está doente por causa de um excesso de naturalidade" (Jung, p. 151)
      A falta de naturalidade e o excesso de artificialismo, que nos fazem adoecer lá fora, também não são bem vindos dentro do setting terapêutico. A autenticidade de um, favorece o desenvolvimento da autenticidade no outro. Exercitar a autenticidade dentro, nos ajuda a melhor experiencia-la fora, no cotidiano e em outras relações. O setting terapêutico é um microcosmo no qual, muitas vezes sem perceber, reproduzimos  os padrões de relacionamento de lá de fora; é, por isso mesmo, um lugar privilegiado para olharmos cuidadosamente para estes padrões e aprendermos novas formas "de ser e estar" nas relações e no mundo.
"Onde impera o amor, não existe vontade de poder; e onde o poder tem precedência, aí falta o amor. Um é a sombra do outro"

(Jung, Psicologia do inconsciente, p.45)
     Na relação terapêutica não há hierarquização. É claro que cada um possui um papel extramente diferente e bem definido, mas ambos são portadores de conhecimentos legítimos e numa perspectiva junguiana/humanista ninguem, além do próprio analisando, pode saber mais sobre si e sua dor. Se o terpaeuta é um mapa, seu cliente é o território; se o terapeuta é uma bússula, seu cliente é justamente o campo magnético que aponta o norte; se o terapeuta é um termómetro, seu cliente é quem lhe dá o contexto, os estados térmicos; se o terapeuta é um ser humano que acredita e trabalha com a incomensurável capacidade do homem de se reinventar, seu cliente é um ser humano capaz de resgatar a fé em sua própria capacidade curativa e criativa.

    
     Após estas reflexões, que são, de certa forma, repostas à pergunta-título "O que esperar da análise?", sinto-me mais confortável em enumerar o que este processo (que não está alicerçado numa relação de poder e no qual cada um dos envolvidos participa ativamente) pode, concretamente, oferecer:
Conscientização, insight, resigificação do passado, libertatação de algo, de alguém ou de partes de si mesmo que não fazem mais sentido, transformação, centramento, integração, independização, empoderamento, abandono de compulsões, automatismos e auto sabotagens, capacidade de estabelecer bons relacionamentos com outros e consigo próprio, com o passado, com o futuro e sobretudo com o presente...



    
   

4 de fevereiro de 2013

Abordagem junguiana do sofrimento - Parte 2


(Recomendo a leitura de "Abordagem junguiana do sofrimento - Parte 1" antes da leitura deste post, que é um acréscimo ao primeiro texto, no qual a perscpectiva junguiana do sofrimento é melhor explicitada).
 
Meias verdades
Meias vontades
 Meias saudades
                 Viver pela metade é ilusão
Tire suas meias
        Ponha o pé no chão 
                                                                       (Augusto Barros)

Complementando o que foi discutido no post "Abordagem junguiana do sofrimento - Parte 1", julgo importante refletir sobre o que James Hollis pontuou como sendo "sofrimento não autêntico" e  "sofrimento autêntico". Tendo em vista a importância de "tirar as meias e pôr os pés no chão", pensemos sobre o que significa sofrer uma dor de forma autêntica sem criar novas dores, novos sofrimentos "em cima" das chagas mais profundas...  

Antes de qualquer exposição sobre  a significação dada por Hollis para o que venha a ser o sofrimento autêntico e o não autêntico, vale refletir sobre o adjetivo escolhido para qualificar tão importante substantivo para o dicionário da vida: o sofrimento. 

A autenticidade, de acordo com o dicionário Houaiss, é a qualidade de tudo aquilo que é verdadeiro,  legítimo, adequado, genuíno. Em um primeiro momento, poderíamos nos perguntar: como pode haver um sofrimento que não seja legítimo, verdadeiro? Se na clinica psicológica todo sofrimento (grande, pequeno, simples, complexo, antigo ou novo) deve ser respeitado, acolhido e considerado como verdadeiro, como poderíamos dividir a experiência dolorosa de um indivíduo em autêntica ou não autêntica?
A qualidade de verdadeiro a qual Hollis se refere tem uma acepção especial no contexto de sua diferenciação do sofrimento e espero que esse sentido específico dado a palavra "autêntico" fique claro ao londo da minha exposição.

O "sofrimento não autêntico" é consequência de uma forma de vivenciar os problemas baseada na fuga. Dá-se, então, que diante dos problemas, várias defesas contra a vivência da experiência dolorosa e traumática são acionadas. São subterfúgios, evasivas ou soluções inadequadas/ineficientes que fazem com que o confronto autêntico com a dor seja anulado ou eternamente postergado. Importante frisar que o intuito de "fugir" e "criar defesas" contra as intempéries existenciais é, em essência, o de curar as feridas abertas, mas o resultado de tal estratégia é a geração de mais sofrimento. 

Como escreve Hollis “sem o sofrimento, que parece o requisito epifenomenal para o amadurecimento psicológico e espiritual, permaneceríamos inconscientes, infantis e dependentes. No entanto, muitos dos nossos vícios, apegos ideológicos e neuroses são maneiras de fugir ao sofrimento” (p.10). Ironicamente, gerando outros tantos! E prossegue o autor, que apesar de retratar uma realidade norte-americana, nos fala, em essência, de uma realidade universal: 
 "Um em quatro norte-americanos se identificam com sistemas de crenças fundamentalistas, buscando dessa forma aliviar sua jornada com valores simplistas, preto no branco, subordinando a ambiguidade espiritual à certeza de um líder e à oportunidade disponível de projetar a ambivalência da vida sobre seus semelhantes. Outros vinte e cinco por cento se entregam a algum tipo de vício, anestesiando momentaneamente a angústia existencial, apenas para vê-la implacavelmente retornar no dia seguinte. Os restantes escolheram ser neuróticos, ou seja, criar uma série de defesas fenomenológicas contra os ferimentos da vida" (Hollis, p.10).

Nesse contexto, o papel da terapia não é remover  de imediato o sofrimento, mas sim examiná-lo. O intuito é o de liberar a energia vital/psíquica que fica aprisionada na repetição incessante de padrões disfuncionais para que ela flua em direção a uma consciência ampliada capaz de sustentar as dolorosas contradições da vida, as angústias e as inevitáveis discrepâncias entre o que queremos e o que dispomos na realidade externa. Do contrário, permaneceremos fugindo, negando ou se vitimizando.

O "sofrimento não autêntico" é, em linhas gerais, aquele que, de uma forma ou de outra, encerra a alma em uma reação excessivamente ponderada, insegura e exitante diante da complexidade inerente à vida. É não autêntico, não verdadeiro por não ser profícuo, por não conduzir ao crescimento e por estar atrelado a (e ser conseqüência de) comportamentos que retardam o contato com a verdadeira área geradora de dor e angústia. Os sofrimentos advindos, por exemplo, dos vícios, da unilateralidade ideológica e das neuroses são, poderíamos dizer, de segunda ordem...o sofrimento primeiro, legítimo, aquele que deve ser melhor considerado e trazido a consciência, é aquele que se esconde atrás da motivação inconsciente em recorrer a estas estratégias amortecedoras: vício, apego ideológico, neurose, dentre tantos outras formas de fuga...

Isto posto, é possível entrever o que venha a ser o "sofrimento autêntico": uma reação realista às ásperas arestas da existência!

"Jung observou que o opus, o trabalho da alma, consiste em três partes: ‘insight, perseverança e ação’. A psicologia, comentou ele, só pode ajudar a fornecer o insight. Depois disso, vem a coragem moral de fazer o que precisamos e a força para suportar as consequências” (Hollis, p.21). 

O cumprimento do que Jung chamou de “obrigação moral” é o compromisso em assumirmos nossa responsabilidade perante tudo o que descobrimos e aprendemos no contato com o nosso inconsciente, fonte inesgotável de sabedoria. É vivermos aquilo que percebemos, é vivenciar no "mundo aqui em cima" o que recebemos através das percepções advindas do contato com a riqueza "do mundo subterrâneo". 
"O Inconsciente é natureza que nunca engana: só nós nos enganamos"
( C.G. Jung, Símbolos da Transformação, p. 54)