Não conheço os palestrantes, mas a temática é interessante e pretendo prestigiar os colegas. Depois, assim como fiz com a palestra de Marcus Quintaes "A tristeza é azul: notas arquetípicas sobre a melancolia" , compartilharei aqui minhas anotações...
Este é um espaço para a reflexão de temas que em algum momento e por alguma razão (do meu contexto pessoal ou da minha prática clinica) se tornaram, usando uma expressão gestáltica, importantes FIGURAS no imenso FUNDO existencial.
6 de maio de 2013
3 de maio de 2013
A dança da sombra no palco do casamento
Ventura, colunista de Los Angeles, num trecho de "A dança da sombra nos Estados Unidos", narra o encontro proporcionado pelo casamento com os seus "horrores" internos, que numa relação estável e duradoura puderam emergir do armário. O autor demonstra o quanto o matrimônio parece ser uma situação perfeita para que nossos "demônios" levantem suas cabeças e bravejem suas "verdades" e exigências.
O texto encontra-se no livro Ao encontro da sombra (Zweig e Abrams), no capítulo destinado às reflexões sobre os aspectos sombrios que emergem nos relacionamentos interpessoais. A idéia central é a de que "qualquer relacionamento íntimo pode servir como excelente veículo para o trabalho com a sombra, no qual o fogo do amor pode se alastrar pelos lugares imobilizados, iluminar os devãos escuros e nos apresentar a nos mesmos" (p.87).
Já postei um texto (O casamento como veículo para o trabalho com a sombra) deste mesmo livro e sobre o mesmo assunto. Quem tem interesse em se aprofundar no tema (ou em suas relações!) vale lê-lo também.
Ambos substanciam, de certa forma, a discussão levantada em Fidelidades perversas e traições leais, na qual reflito sobre o quanto algumas traições conjugais se configuram como uma tentativa de responder ao desígnio maior da alma (psique), que é se auto-realizar. Quando os padrões relacionais se mostram falidos, surge o convite da alma para a transgressão. Mas a grande questão é: devo trair o padrão ou trair o parceiro? Como muitos contratos matrimoniais (inconscientemente estabelecidos) não suportam modificações, trair o outro acaba por se tornar a única alternativa para não continuar traindo a si mesmo. Mas há de se considerar fortemente que não são todas as traições que se originam do desejo da alma por realização e crescimento, muitas são convites feitos pelo ego! Essa diferenciação é crucial para a legitimidade da proposta que apresento no post supracitado de que nem toda traição pode ser entendida apenas como um "desrespeito ao outro".
Acredito que os três textos (os dois do livro Ao encontro da sombra e o de minha autoria - Fidelidades perversas e traições leais) apontam possíveis respostas às perguntas:
"Por que tantos conflitos e desentendimentos conjugais?"
"Por que tantas separações?"
"Por que tantas desistências ou traições?"
E principalmente, "Mudar de parceiro sempre que a crise se instala acreditando que com a pessoa 'y', 'x' ou 'z' vai ser diferente, é realmente a atitude que nos aproxima do tão idealizado 'viveram felizes para sempre'?".
O texto encontra-se no livro Ao encontro da sombra (Zweig e Abrams), no capítulo destinado às reflexões sobre os aspectos sombrios que emergem nos relacionamentos interpessoais. A idéia central é a de que "qualquer relacionamento íntimo pode servir como excelente veículo para o trabalho com a sombra, no qual o fogo do amor pode se alastrar pelos lugares imobilizados, iluminar os devãos escuros e nos apresentar a nos mesmos" (p.87).
Já postei um texto (O casamento como veículo para o trabalho com a sombra) deste mesmo livro e sobre o mesmo assunto. Quem tem interesse em se aprofundar no tema (ou em suas relações!) vale lê-lo também.
Ambos substanciam, de certa forma, a discussão levantada em Fidelidades perversas e traições leais, na qual reflito sobre o quanto algumas traições conjugais se configuram como uma tentativa de responder ao desígnio maior da alma (psique), que é se auto-realizar. Quando os padrões relacionais se mostram falidos, surge o convite da alma para a transgressão. Mas a grande questão é: devo trair o padrão ou trair o parceiro? Como muitos contratos matrimoniais (inconscientemente estabelecidos) não suportam modificações, trair o outro acaba por se tornar a única alternativa para não continuar traindo a si mesmo. Mas há de se considerar fortemente que não são todas as traições que se originam do desejo da alma por realização e crescimento, muitas são convites feitos pelo ego! Essa diferenciação é crucial para a legitimidade da proposta que apresento no post supracitado de que nem toda traição pode ser entendida apenas como um "desrespeito ao outro".
Acredito que os três textos (os dois do livro Ao encontro da sombra e o de minha autoria - Fidelidades perversas e traições leais) apontam possíveis respostas às perguntas:
"Por que tantos conflitos e desentendimentos conjugais?"
"Por que tantas separações?"
"Por que tantas desistências ou traições?"
E principalmente, "Mudar de parceiro sempre que a crise se instala acreditando que com a pessoa 'y', 'x' ou 'z' vai ser diferente, é realmente a atitude que nos aproxima do tão idealizado 'viveram felizes para sempre'?".
A
dança da sombra no palco do casamento
Michael Ventura
Jan
e eu passamos direto da paquera para o casamento. Decidimos casar dez dias
depois de nos termos conhecido. Isso nos poupou a tarefa de ficar
não-conhecendo um ao outro, que em geral consiste naquela coisa triste que é um
experimentando o seu "eu" no outro, testando de modo compulsivo e/ou
intencional a capacidade de compromisso. Isso é necessário numa fase da vida
mas, como muitos da nossa idade, já o tínhamos feito muitas vezes antes.
Decidimos que dessa vez era sem teste. Iríamos dançar conforme a música. Casar
conforme a música.
Casamos
um com o outro ou casamos com o impulso? Boa pergunta. Uma pergunta que
só pode ser respondida quando já é tarde demais. Melhor ainda. Pois o amor nada
será se não houver fé. Nada.
Quando
Brendan nasceu, quase nove anos antes de Jan e eu nos conhecermos, ela mandara imprimir
nos cartões o refrão do velho blues:
Baby l learned
to love you
Honey 'fore I
called
Baby 'fore I
called your name
(Baby, aprendi a te amar...antes de dizer...antes de dizer o teu nome”)
O amor geralmente acontece do jeito que diz essa velha canção. Como se amar fosse "dizer o seu nome". E, com certeza, "ser amado" é sentir que o nosso nome é dito com uma inflexão que nunca ouvimos antes.
O amor geralmente acontece do jeito que diz essa velha canção. Como se amar fosse "dizer o seu nome". E, com certeza, "ser amado" é sentir que o nosso nome é dito com uma inflexão que nunca ouvimos antes.
E
o nosso convite de casamento dizia assim:
Come on over
We ain't fakin'
Whole lotta shakin’
goin’ on
(Chega pra cá, não tamos brincando, tem muita coisa pra sacudir)
É esquisito, hoje, pensar como foi vaga a nossa premonição de usar esse verso de Jerry Lee Lewis — embora uma única vez tenhamos "chegado às vias de fato" (reveladora essa velha expressão, não é?, com esse estranho formalismo), e foi Jan quem começou, quebrou meus óculos, e então eu dei nela, uma vez só, e ela bateu contra a parede, nós dois nos sentindo tão sujos e feios e errados. Quantos avôs e avós, amargos e há muito idos, estavam na sala naquela hora, cacarejando de satisfação diante da nossa vergonha? Os dela, irlandeses; os meus, sicilianos. Duas tradições que não nos ensinaram a perdoar. Aprender a perdoar é romper com um passado imperdoável.
É esquisito, hoje, pensar como foi vaga a nossa premonição de usar esse verso de Jerry Lee Lewis — embora uma única vez tenhamos "chegado às vias de fato" (reveladora essa velha expressão, não é?, com esse estranho formalismo), e foi Jan quem começou, quebrou meus óculos, e então eu dei nela, uma vez só, e ela bateu contra a parede, nós dois nos sentindo tão sujos e feios e errados. Quantos avôs e avós, amargos e há muito idos, estavam na sala naquela hora, cacarejando de satisfação diante da nossa vergonha? Os dela, irlandeses; os meus, sicilianos. Duas tradições que não nos ensinaram a perdoar. Aprender a perdoar é romper com um passado imperdoável.
Pense
na palavra: "perdoar"... "doar"... "dar". O perdão
é um dom tão grande que o conceito de "dar" está contido na palavra
"perdoar". A tradição cristã tentou tornar o perdão humilde e passivo:
ofereça a outra face. Mas "dar" é um verbo ativo, que revela a
verdadeira natureza do perdão: perdoar envolve o ato de tomar algo de si mesmo
e dá-lo ao outro, para que de agora em diante lhe pertença, Não tem nada de
passivo. É um intercâmbio. Um intercâmbio de fé: acreditar que aquilo que foi
feito pode ser desfeito ou transcendido. Quando duas pessoas precisam fazer
esse intercâmbio uma com a outra, esse pode ser um dos atos mais íntimos de
suas vidas.
O
perdão é uma promessa de trabalhar para desfazer, para transcender. O
casamento muito cedo oferece aos envolvidos a oportunidade de perdoar. Houve
muitas cadeiras quebradas, muitos pratos quebrados — até uma máquina de
escrever quebrada, minha velha e amada Olympía manual portátil que estava
comigo desde os tempos do colégio e que eu mesmo arrebentei — testemunhando
quão desesperado pode ser o desespero conjunto de todos os Michaels, Jans e
Brendans. Whole lotta shakin’ goin' on: tem muita coisa para
sacudir... e, às vezes, quando você está tentando romper as crostas
endurecidas dentro de si mesmo e dentro de cada um dos outros, alguns pratos e
máquinas de escrever e móveis podem participar do processo.
O
aspecto mais odioso dos "diga a si mesmo que está tudo bem" e
"eu estou OK, você está OK" é a incapacidade deles de admitir que às
vezes você precisa gritar, bater portas, quebrar móveis, avançar o farol
vermelho e perder o controle só para poder começar a achar as palavras que
descrevem essa coisa que está comendo você por dentro. Às vezes, a meditação e
o diálogo simplesmente não conseguem removê-la. Às vezes ela precisa mesmo é de
uma boa "cortada" — ou, pelo menos, a whole lotta shakin’, uma
boa "sacudida geral". Quem tem medo de quebrar, por dentro ou por
fora, está no casamento errado. Pôr tudo para fora. Escancarar as janelas. Depois
da tempestade, vamos ver o que restou.
E
isso é "o lenitivo que o casamento oferece" — ouvi essa
expressão em diversos contextos mas, exceto nesse sentido, sou incapaz de
compreendê-la. Descobrir o que é inquebrável em meio a tudo o que foi quebrado.
Descobrir que a união pode ser tão irredutível quanto a solidão. Descobrir que
os dois precisam compartilhar, não só o que não conhecem um do outro,
mas também o que não conhecem de si mesmos.
Compartilhar
o que conhecemos é, em comparação, um exercício insignificante.
Terei
eu dito que havia apenas uma multidão de Jans, Brendans e Michaels acampados na
caverna iluminada pela fogueira que tem a aparência de um velho e barato duplex
com caixilhos de madeira ao sul do Boulevard Santa Mônica em Los Angeles? A
vida nem sequer é assim tão simples! O que dizer do populacho enfurecido a
quem, por polidez, denominamos "o passado"? Não há nada de abstrato
com "o passado". Aquilo que marcou você ainda está marcando você.
Existe um lugar em nós onde as feridas nunca cicatrizam e onde os amores nunca
terminam. Ninguém sabe muito sobre esse lugar exceto que ele existe,
alimentando nossos sonhos e fortalecendo e/ou assombrando os nossos dias. No
casamento, ele existe com mais força que de hábito.
Ensangüentada, açoitada, semimorta, nua e torturada, minha mãe pende de um gancho no meu armário... pois pende de um gancho dentro de mim. Às vezes preciso tirá-la para fora e executamos a dança da dilaceração, arrancando nacos um do outro e, cheios de felicidade, espalhamos salpicos por todo lado — por cima de Jan, várias das muitas Jans, e vários dos muitos Brendans, e fujam para as montanhas, meus queridos, porque estou no meu horror.
Um dos meus muitos, meus insistentes horrores.
Ensangüentada, açoitada, semimorta, nua e torturada, minha mãe pende de um gancho no meu armário... pois pende de um gancho dentro de mim. Às vezes preciso tirá-la para fora e executamos a dança da dilaceração, arrancando nacos um do outro e, cheios de felicidade, espalhamos salpicos por todo lado — por cima de Jan, várias das muitas Jans, e vários dos muitos Brendans, e fujam para as montanhas, meus queridos, porque estou no meu horror.
Um dos meus muitos, meus insistentes horrores.
Cada
um de nós, todos nós, estamos cheios de horror. Se você se casa para tentar
espantar os seus, só vai se sair bem se fizer seu horror casar com o horror do
outro, os dois horrores de vocês dois se casarão, você sangrará e chamará isso
de amor.
Meu
armário está cheio de ganchos, cheio de horrores, e eu também os amo, amo
os meus horrores e sei que eles me amam, e por minha causa lá ficarão
pendurados para sempre, porque eles também são bons para mim, eles também estão
do meu lado, eles me deram muito para serem meus horrores, eles me fizeram
forte para sobreviver. Existe muita coisa no nosso novo léxico
"iluminado" que sugere que podemos nos mudar para uma casa que não
tenha esse tipo de armário. Você se muda para uma casa dessas e pensa que está
tudo bem até que começa a ouvir um grito distante e a sentir um cheiro estranho
e aos poucos percebe que o armário está ali; tudo bem, mas ele foi emparedado e
quando precisa desesperadamente abri-lo você encontra tijolos em vez da porta.
Na
nossa caverna na encosta da montanha, neste apartamento, existe um armário onde
os meus ganchos pendem ao lado dos de Jan e dos de Brendan — é espantoso
quantos ganchos um menino de apenas onze anos consegue acumular —, que também
estão ali por boas e dolorosas razões deles mesmos.
Para
que o casamento seja um casamento, esses encontros não acontecem por
compulsão ou por acidente; eles acontecem por intenção. Não quero dizer que
todos os encontros com todos os vários eus e fantasmas sejam planejados (isso
não é possível, embora às vezes possam ser evocados conscientemente); o que
quero dizer é que esse nível de atividade é reconhecido como parte da busca,
parte da responsabilidade que cada pessoa tem por si mesma e pelo outro.
E
essa é a grande diferença entre as expectativas de um casamento e as de um
relacionamento. Minha experiência de um relacionamento é duas pessoas compulsivamente
trocando cadeiradas ao som de uma seleção musical dos arquétipos interiores uma
da outra. Meu gângster durão tem um caso com a tua gata de inferninho. Sou o
teu menor abandonado, és a minha mãe amorosa. Sou o pai que perdeste, és a
minha filha amada. Sou o teu adorador, és a minha deusa. Sou o teu deus, és a
minha sacerdotisa. Sou o teu paciente, és a minha analista. Sou a tua
intensidade, és o meu solo. Esses são alguns dos padrões mais extravagantes. Animus
e anima no sobe-e-desce da gangorra.
Esses
padrões mantêm-se razoavelmente bem enquanto os pares arquetípicos se
sustentam. Mas uma noite o garotinho dentro dele procura a mamãe dentro dela e
em vez disso encontra uma analista de língua afiada que disseca suas entranhas.
A menina dentro dela procura o papai dentro dele mas encontra um adorador pagão
que quer fazer amor com uma deusa, e isso faz dela uma menina fingindo que é
uma deusa para agradar o papai que não passa de um idolatra libidinoso mas...
nesse jogo, menina não entra. A mulher se sente atraída pelo machão mas ele, secretamente,
procura pela mãe — quando o eu sexual do homem está a serviço de um garotinho
interior, não é de surpreender que ele não consiga ou que termine muito
depressa. Ou então ele não está realmente ali, para ele é uma
masturbação. Para esse homem com sua psique de garotinho, a mulher real é
apenas uma substituta. E a mulher que está com ele na cama — uma extensão da
sua masturbação — fica se perguntando (mesmo que a ação seja boa) por que não
consegue sentir que está dormindo com alguém. E por que ele se afasta
tão depressa quando acaba.
Por
outro lado, o professor transa com a excitação do aluno, o analista transa com
o abandono do paciente e o casal se vê, na cama, como deus e deusa a iluminar
os céus — mas a psique é uma entidade múltipla e mutável, e nenhum desses pares
compatíveis se mantém estável por muito tempo. Os desencontros arquetípicos
logo começam e então é um desastre de confrontações que podem levar anos sem
chegar a parte alguma (valeria a pena levar anos para chegar a algum
lugar). As pessoas se cansam e desistem. E então o ciclo recomeça com outra pessoa.
Minha
experiência de um casamento é que tudo isso está presente mas, instintiva ou conscientemente,
o que temos nele são duas pessoas atropelando os arquétipos interiores uma da
outra, desafiando-os, seduzindo-os, lisonjeando-os, emboscando-os, fazendo-os falar,
abrindo-se a eles, fugindo deles, violando-os, apaixonando-se por alguns e
odiando outros, conhecendo alguns, fazendo amizade com outros, pendurando
alguns no gancho do armário do parceiro — cabides dos quais pendem pais, mães,
irmãs, irmãos, outros amores, ídolos, fantasias, talvez até vidas passadas e a verdadeira
consciência mitológica que às vezes emerge dentro de nós com tal força que
sentimos o elo que remonta a milhares de anos e até mesmo a outros domínios do
ser.
Isso
é o que "desposamos" no outro, um processo que continua enquanto
trabalhamos para ganhar a vida, vamos ao cinema, assistimos televisão, vamos ao
médico, passeamos pelas Palisades, viajamos para o Texas, acompanhamos as
eleições, tentamos parar de beber e nos empanturramos de Häagen-Dazs.
Quando ouvi a primeira história de amor
comecei a
procurar por ti, sem saber
o quanto estava cega.
Os amantes não se encontram num lugar.
Eles existem,desde sempre, um no outro.
Rumi
Talvez todos os dragões desta vida
Sejam princesas à espera de
ver-nos, belos e bravos.
Talvez o horror seja apenas,
no mais fundo do seu ser, algo
que precisa do nosso amor.
Rainer Maria
Rilke
2 de maio de 2013
Fidelidades perversas e traições leais
Venho hoje refletir sobre uma situação da qual ninguém, ou ao menos aqueles que já a experimentaram, sente disposição para relembrar. Assunto delicado, tão assustador e pungente, tão presente e ao mesmo tempo negligenciado por nossa vida consciente. Relegado ao esquecimento, ao inconsciente e normalmente associado a vergonha, a vingança e a culpa; mas nunca ao crescimento e autoconhecimento.
Motivada por algumas leituras (Bonder, Carotenuto, Hollis) e, de certa forma, pela lógica "nelsonrodriguiniana" de que devemos ver a vida "tal como ela é", sinto-me impelida a refletir sobre aqueles momentos em que fomos ou nos sentimos traídos, abandonados, trocados... e tantos outros verbos que compõem a cena dolorosa da traição.
Claro que essa palavras podem assumir uma forma adjetiva (mulher rejeitada, homem traído, mulher abandonada), mas insistir que no drama da traição o melhor é concebe-las como verbos é ressaltar um ponto central, que faz toda a diferença: tanto "eu" quanto "ele" ou "ela" traímos, abandonamos e rejeitamos. Quer queiramos ou não reconhecer, somos todos sujeitos destas ações, ao menos em potencial. E estamos todos sujeitos a elas. Tendo sido eu ou não "o agente do verbo" trair, a realidade é que não há nesta vivência dolorosa '"sujeito agente ou paciente", "passivo ou ativo", vítima ou algoz. Ambos são, a um só tempo, agentes e vitimas de um desencontro que desembocou numa traição. Nesse sentido, Hollis afirma que:
"A pílula mais amarga na traição pode ser reconhecermos relutantemente, amiúde anos depois, que nós fizemos parte do balé conivente que com o tempo provocou a traição. Se conseguirmos engolir esta amarga pílula, teremos uma sensação bem mais ampla de controle da nossa sombra. Nem sempre iremos gostar do que seremos intimados a reconhecer. (...) Mas a partir dessa amarga erva, muita consciência evolui" (Hollis, em "Os pantanais da Alma", p.67).Carotenuto, num livro com título um tanto provocador ("Amar, trair: quase uma apologia da traição"), defende o mesmo ponto de vista:
"A verdade é que a traição não pode ser atribuída a um só dos componentes do casal; em certo sentido, traído e traidor recitam um texto preciso, no qual, porém, cabe ao traidor a parte mais onerosa. Ele deve assumir a responsabilidade de preparar as bases para uma revisão e dissolução de uma relação que já perdeu toda razão de ser. Muitas vezes o traído já há muito pressentia o drama, mas sentia necessidade de negá-lo, porque investira tudo na outra pessoa" (Carotenuto, p. 132)Falar da dor da traição é, portanto, falar da dor em reconhecer que o outro, aquele que me machuca, também é uma faceta minha e que com sua ação ele está comunicando algo sobre mim mesma, sobre ele e sobre a nossa relação.
Identificar-se apenas com a vítima é o mesmo que solapar a possibilidade de ampliação da consciência e transformação. O traidor é, na verdade, o executor de algo que o traído, mesmo inconscientemente e diante de todas as suas repressões, também é capaz de fazer, mental ou concretamente. Somos todos hospedeiros de luz e sombra, das infinitas polaridades e possibilidades humanas, quer concretizemo-las ou não. O reconhecimento da nossa capacidade de também trair não nos habilita apenas ao perdão, mas sobretudo à libertação da dor e do ressentimento; condição necessária para que possamos seguir, com o mesmo parceiro ou numa nova relação.
Na medida em que saímos da identificação rígida com apenas um dos polos (sou o traído, sou o traidor) abrimos a possibilidade de adentrar num território de possível crescimento pessoal e conjugal. Conseguir, diante de uma situação de traição, transitar entre os dois "lugares" é valorizar que, para além de vítima ou culpado, há, implícito à traição, algo muito mais importante, uma espécie de alerta: a infelicidade ou a insatisfação encontraram um jeito, talvez o pior, de se abrandarem. Insatisfação comigo mesmo (daí a necessidade, às vezes compulsiva, de uma terceira pessoa que me reafirme, que me regozije) ou com a relação.
É sobre esta última motivação que pretendo me delongar. A primeira (insatisfação consigo próprio, insegurança, baixa autoestima e ect) conduziria a discussão sobre traições para outros rumos.
Trair por descontentamento com a relação é o mesmo que fugir de um lugar onde estamos nos sentido "apertados", comprimidos. É claro que esta não é a única ou melhor solução, pois um novo relacionamento, mas cedo ou mais tarde, desembocará novamente num "lugar apertado", onde dois corpos (leia-se subjetividades) mais uma vez se depararão com a real dificuldade de ocuparem um mesmo espaço... dois mundos espremidos!
Nilton Bonder, em "A Alma Imoral", descreve quatro possíveis comportamentos que normalmente assumimos quanto estamos diante da necessidade de sair do "lugar estreito". Lugar que outrora serviu para nosso desenvolvimento e satisfação, mas que em um determinado momento (e por vários motivos) se tornou apertado e limitador:
1º- Recuar: resolvemos, finalmente, sair do "lugar estreito", mas diante da força do hábito e do medo da mudança, preferimos recuar e ali permanecemos, mesmo que descontentes. A consequência: desacreditamos no novo e passamos a concebê-lo apenas com uma ilusão. É, em outras palavras, a conformidade com a realidade e com as limitações que ela impõe.
2º- Lutar: é a crença de que se poderá fazer do próprio lugar estreito um lugar mais amplo. A premissa é que jamais deve-se esquecer que o lugar estreito um dia não o foi.
3º- Desesperar-se: é a crença na intransponibilidade do "lugar estreito" que gera desesperança no futuro. "Desse desespero surge a resignação de que, apesar de não se voltar ao lugar estreito, jamais se poderá atingir um novo lugar amplo" (Bonder, p.48).
4º- Orar: é a crença de que a mudança pode acontecer sem uma nova definição de si, do outro e da relação. É a inútil esperança de que a realidade pode vir a se tornar mais compassiva sem a remodelação necessária.
Apesar de Bonder ter concluído que nenhuma das quatro são alternativas válidas para uma verdadeira superação do "lugar estreito", acredito que o segundo comportamento (lutar) é uma possibilidade legitima de superação da problemática do estreitamento quando o "lugar estreito" em questão é um casamento. Bonder trabalhou com um conceito mais amplo de estreiteza, mencionou lugares estreitos que nem sempre são passiveis de "alargamento" pela luta. Mas quando o assunto é relacionamento, às vezes, "o comportamento de luta" pode, de fato, assumir uma forma positiva e altamente transformadora. Nesses casos, "lutar" para fazer do próprio lugar estreito um lugar mais amplo me parece o mesmo que reconhecer que a traição (a fuga) não se configura como uma alternativa duradoura. Como dito anteriormente, nenhum lugar poderá ser amplo para sempre. O ponto de equilíbrio não é estático e é na aceitação e envolvimento consciente com a força constante da tensão entre os opostos que o equilíbrio pode ser repetidamente reconquistado.
Apesar da pertinente associação da traição à fuga, essa é uma meia verdade, é apenas uma possibilidade associativa dentre várias outras. Se não tivermos medo de olhar as coisas pelo "lado escuro" ou avesso, é possível reconhecer que apesar da traição não ser uma solução, em alguns casos, ela pode se configurar como uma tentativa de renascimento, de revitalização. "Se o outro (...) é aceito somente enquanto corresponde à expectativa, é claro que, na vida de casal, cada um é delimitado em um papel, e não pode sair dele. A traição pode ser lida, portanto, não só como abandono do outro, mas também como tentativa irada de reconhecimento daquelas partes de si sufocadas na relação" (Carotenuto, p.135).
Para não cairmos numa espécie de apologia à traição ou defesa aos traidores, é fundamental frisar que as motivações são diversas e distintas em cada caso particular. Atribuímos importância excessiva ao ato exterior e diminuímos a importância do estado interior; a manifestação exterior é secundária quando queremos considerar a raiz do problema (Palestra Pathwork nº 74 - Confusões duvidosas e motivações nebulosas). Então, para além da moral, do certo ou errado, bonito ou feio, o ponto central é discernir se a traição corresponde a um movimento/desejo de crescimento ou é apenas expressão de confusão destruidora, narcisista, vingativa e infantil. Cometê-la sem interrogar-se sobre a qual inquietação ela se refere é o mesmo que permanecer inconsciente dos limites (pessoais ou relacionais) que tem perturbado a possibilidade de se manter numa relação estável e duradoura. É ficar eternamente sujeito ao ciclo nada transformador de insatisfação-traição. Essas reflexões são importantíssimas quando há uma compulsão à trair, uma busca cega "sabe-se lá do que", um padrão repetitivo que nada tem a ver com a procura madura e consciente de auto realização. O donjuanismo e o coquetismo são, inegavelmente, desastrosos sintomas que precisam ser melhor compreendidos. Como ressalta Bonder, esse tipo de infidelidade, esse "tipo de traidor" não age em função da necessidade de romper com uma situação externa disfuncional; mas sim, no sentido de perpetuar uma situação interna (psicológica) disfuncional. Suas ações são mais do que uma traição ao outro; eles traem, acima de tudo, a própria alma (psique), o próprio crescimento. Quando o Self nos "convida" à transgressão, ela inevitavelmente se configura como um passo em direção à saúde, ao crescimento, à expansão. Quando o convite é feito pelo ego, ou por partes sombrias de nossa psique, a transgressão é apenas um ato de manutenção de patologias.
Em meio às reflexões sobre infidelidade é necessário também falar do seu oposto: a fidelidade. Retomo Bonder: a infidelidade é tanto o rompimento de compromissos quanto a manutenção dos mesmo de forma destrutiva, pois há fidelidades perversas e traições de grande lealdade. Há de se considerar que "...é possível que uma pessoa não cometa jamais uma ato de infidelidade, mas as motivações de sua 'fidelidade' podem ser tão doentias e imaturas quanto as motivações que levariam a pessoa a ser infiel externamente. A fidelidade exterior pode não ser fidelidade verdadeira. Portanto, o ato exterior fora de contexto e por si mesmo não pode ser adequadamente avaliado" (Palestra Pathwork nº 74 - Confusões duvidosas e motivações nebulosas)
Assim sendo, o que é ser fiel? É necessário ser fiel! É isso que aprendemos, é isso que desejamos quando entramos num relacionamento e é o que prometemos. Mas é necessário ser fiel ao quê? Ao outro? Acredito, assim como Bonder, Hollis, Carotenuto e tantos outros, que se deve, acima de tudo, ser fiel ao crescimento psicológico pessoal. E para isso preciso, necessariamente, trair ao outro? Na verdade não é ao outro que devemos trair, mas sim ao padrão de relacionamento, à zona de conforto. À suposta zona de conforto, aquele "lugar apertado" demais para os anseios do Self, mas vivido pelo ego como confortável, seja por medo da mudança ou pelo apego aos "ganhos secundários" de se permanecer numa relação, ainda que medíocre. Quem realmente devemos trair é o hábito, o medo, a rotina, a estreiteza, os pactos disfuncionais inconscientemente estabelecidos entre os cônjuges...
Aparentemente é muito mais fácil tentar resgatar fora aquelas coisas que foram perdidas (ou vetadas) dentro de uma relação intima. Bonder bem ilustra essa dificuldade de fazer coincidir crescimento pessoal e crescimento conjugal:
"Observemos um casal que vive uma relação de casamento. O desequilíbrio maior surge quando um dos dois dá um passo à frente em direção à sua vida. Esse passo, que é muito transgressivo em relação à sua situação acomodada, deveria gerar um passo também no cônjuge Se isso acontecesse, ambos estariam equilibrados e sua dinâmica seria natural. No entanto, o que mais acontece como reação a um passo à frente é que o outro dá um passo para trás. O desequilíbrio então se estabelece e uma situação não-dinâmica atravanca o processo vital. A maioria dos casamentos termina pela ocorrência desse ato reflexo. Quando um cônjuge esboça transformações em sua pessoa, implicando em transformações na relação, o outro muitas vezes cobra justamente os compromissos assumidos, dando um passo para trás. Não reconhece que seus direitos de apego não têm o menor valor numa relação em que o compromisso explícito é o relacionamento. Se, numa relação, alguém se modifica, o pacto é este: todos devem se colocar em movimento. A reação de dar um passo para trás - expondo carências, coletando justificativas ou evocando direitos - é um apego que, em si, é a maior das traições ao sonho assumido em pacto" (Bonber, p.31).São os curtos caminhos longos, nos quais a obediência acaba por significar desrespeito e a desobediência respeito (Bonder). A porta de saída dessa situação perversa me parece ser o diálogo, a forma mais transgressiva de lutar pela manutenção do que vale a pena é o casamento entre uma expressão sincera e um ouvinte corajoso e aberto. Mas a base para qualquer comunicação verdadeira e profunda é a auto observação e o auto conhecimento. Se dançávamos valsa e agora sei que o que me apetece é dançar tango, nada mais natural do que avisar ao parceiro e perguntar se ele topa experimentar esse novo ritmo. Do contrário, o velho misoneísmo (aversão a mudanças e hostilidade para com o novo) ganha a cena e o descompasso se instaura, as pisadas no pé se tornam quase que inevitáveis e a dança perde toda a sua beleza e sentido. Se conheço apenas superficialmente minhas motivações, vontades e necessidades como posso expressá-las a contento? É a consciência do locutor/emissor que funciona como esteio para que a revelação autêntica possa florescer. É a consciência do interlocutor/receptor que permitirá, tal como um solo fértil, receber o florescimento de uma verdade alheia. E nessa arte de restaurar a dinâmica vital temos que correr riscos e transgredir algumas convenções, acreditar que "há um olhar que sabe discernir o certo do errado e o errado do certo. Este olhar é o da alma" (Bonder).
17 de março de 2013
Leonardo Boff fala de Jung
Leonardo Boff coordenou junto à Editora Vozes a tradução da obra de C.G. Jung (18 tomos). No vídeo "Leonardo Boff fala de Jung", aqui dividido em três partes, ele nos apresenta as relações entre a psicologia analítica e a espiritualidade. Vale a pena assistir!
Parte 1:
Parte 2:
Parte 3:
2 de março de 2013
A justa medida de valorização do nosso passado, presente e futuro
Relógios Moles ou a Persistência da Memória - Salvador Dali -1931
Um pouco de Schopenhauer, que é frequentemente citado por Jung, para iniciar a reflexão:
Só o Presente é Verdadeiro e Real
Um ponto importante da sabedoria de vida consiste na proporção correta com a qual dedicamos a nossa atenção em parte ao presente, em parte ao futuro, para que um não estrague o outro. Muitos vivem em demasia no presente: são os levianos; outros vivem em demasia no futuro: são os medrosos e os preocupados. É raro alguém manter com exatidão a justa medida. Aqueles que, por intermédio de esforços e esperanças, vivem apenas no futuro e olham sempre para a frente, indo impacientes ao encontro das coisas que hão de vir, como se estas fossem portadoras da felicidade verdadeira, deixando entrementes de observar e desfrutar o presente, são, apesar dos seus ares petulantes, comparáveis àqueles asnos da Itália, cujos passos são apressados por um feixe de feno que, preso por um bastão, pende diante da sua cabeça. Desse modo, os asnos vêem sempre o feixe de feno bem próximo, diante de si, e esperam sempre alcançá-lo. Tais indivíduos enganam-se a si mesmos em relação a toda a sua existência, na medida em que vivem ad interim [interinamente], até morrer. Portanto, em vez de estarmos sempre e exclusivamente ocupados com planos e cuidados para o futuro, ou de nos entregarmos à nostalgia do passado, nunca nos deveríamos esquecer de que só o presente é real e certo; o futuro, ao contrário, apresenta-se quase sempre diverso daquilo que pensávamos. O passado também era diferente, de modo que, no todo, ambos têm menor importância do que parecem. Pois a distância, que diminui os objetos para o olho, engrandece-os para o pensamento. Só o presente é verdadeiro e real; ele é o tempo realmente preenchido e é nele que repousa exclusivamente a nossa existência. Dessa forma, deveríamos sempre dedicar-lhe uma acolhida jovial e fruir com consciência cada hora suportável e livre de contrariedades ou dores, ou seja, não a turvar com feições carrancudas acerca de esperanças malogradas no passado ou com ansiedades pelo futuro. Pois é inteiramente insensato repelir uma boa hora presente, ou estragá-la de propósito, por conta de desgostos do passado ou ansiedades em relação ao porvir.
Arthur Schopenhauer, in 'Aforismos para a Sabedoria de Vida' (retirado do site www.citador.pt)
Este trecho do "Aforismos para a sabedoria da vida" me inspirou a refletir sobre a atenção que devemos, durante a análise e no próprio cotidiano, despender ao nosso passado, presente e futuro.
A psicologia junguiana adota um ponto de vista teleológico, o que significa dizer que em sua investigação do sofrimento psíquico os propósitos, objetivos e finalidades intrínsecas ao desequilíbrio emocional são mais ou tão importantes que as causas. Ou seja, para além da preocupação com os "por ques" (as razões dos conflitos), a psicologia junguiana também considera o "para que" (o propósito de mudança implícito em todos os conflitos). Sondar o sentido oculto e o propósito subjacente às experiências vividas (no passado e no presente) torna-se, nesta perspectiva, mais promissor e libertador do que apenas buscar as causas, pois nem o presente, nem o futuro são simplesmente resultados do passado, são, acima de tudo, consequências de decisões conscientes tomadas no aqui-agora.
Jung questionava a causalidade como princípio de explicação na psicologia. Alegava que as relações de causa e efeito, quando consideradas como o único fator capaz de explicar os meandros do funcionamento psíquico de uma pessoa, podem conduzir a uma compreensão demasiadamente redutiva. Somos criativos e mutáveis o suficiente para não nos reduzirmos ao "que nos aconteceu" ou ao que "fizeram conosco". A ideia mestra é a de que não somos exatamente, ou simplesmente, o que nos aconteceu; somos, acima de tudo, o que escolhemos ser.
"Jung usava a palavra 'redutivo' para descrever o aspecto central do método, de Freud, de tentar revelar as bases ou raízes primitivas, instintivas e infantis da motivação psicológica" (Dicionário Crítico de Análise Junguiana - http://www.rubedo.psc.br/dicjung/verbetes/mesinred.htm). E apresentava-se crítico a este método pois, a partir dele, o significado pleno do produto inconsciente (os sintomas, sonhos, imagens, lapsos da fala, etc) não podia ser revelado. "Ligando um produto inconsciente ao passado, seu valor presente para o indivíduo pode se perder" (idem).
Em contrapartida, e considerando que Jung não rejeitava a importância de analisar o passado e a infância, sua proposta é a de que ao invés de supervalorizar a busca das supostas causas de uma determinada situação, considerando-a como a única fonte de repostas/soluções; devemos nos concentrar na investigação do onde a vida de uma pessoa, tal como ela está sendo vivida no aqui-agora, a está conduzindo. Essa perspectiva, teleológica, era chamada por ele de "sintética". Para o método sintético, os fenômenos psicológicos são considerados como tendo uma intenção, um propósito específico, ou seja, são abordados em termos de sua orientação para um objetivo.
A unilateralização, e seus malefícios, é uma ideia amplamente trabalhada por Jung e sinteticamente significa a atitude de polarizar ou extremar um ponto de vista. No contexto da presente discussão, é de grande valia considerar esta perspectiva de que não devemos nos enrijecer em certezas e congelar em determinadas opiniões/atitudes, pois as abordagens redutivas e sintéticas são ambas válidas e podem e devem coexistir.
Passado, presente e futuro possuem um valor relativo. Dependendo do momento em que estamos na compreensão de nossa vida e de nossa situação atual, um ou outro deverá ser melhor considerado, sem perder de vista que mesmo que o ponto de partida da análise seja o passado ou o futuro, o ponto de chegada é sempre o presente. Como asseverou Schopenhauer, só ele é real, "é o tempo realmente preenchido e é nele que repousa exclusivamente a nossa existência".
Passado, presente e futuro possuem um valor relativo. Dependendo do momento em que estamos na compreensão de nossa vida e de nossa situação atual, um ou outro deverá ser melhor considerado, sem perder de vista que mesmo que o ponto de partida da análise seja o passado ou o futuro, o ponto de chegada é sempre o presente. Como asseverou Schopenhauer, só ele é real, "é o tempo realmente preenchido e é nele que repousa exclusivamente a nossa existência".
Selecionei algumas citações de Jung feitas na conferência "As etapas da Vida" (volume "A natureza da psique") para complementar e suscitar novas reflexões sobre a forma como devemos nos relacionar (conduzir, contemplar, aceitar, integrar, refletir, trabalhar etc) com os fatos marcantes do nosso passado e presente e com as ligações entre ambos e nosso futuro:
"Quem se protege contra o que é novo e estranho e regride ao passado está na mesma situação neurótica daquele que se identifica com o novo e foge do passado. A única diferença é que um se alheia do passado e o outro do futuro. Em princípio, os dois fazem a mesma coisa: mantêm a própria consciência dentro de seus estreitos limites, em vez de fazê-la explodir na tensão dos opostos e construir um estado de consciência mais ampla e elevada" no aqui-agora (acréscimo meu) (p.343).
"Todos os distúrbios neuróticos, bastante frequentes, da idade adulta têm em comum o fato de quererem prolongar a psicologia da fase juvenil para além do limiar da chamada idade do siso" (p.346).
"O neurótico é, antes, alguém que jamais consegue que as coisas corram para ele como gostaria que fossem no momento presente, e, por isso, não é capaz de se alegrar com o passado" (p.346).
"Não podemos viver a tarde de nossa vida segundo o programa da manhã, porque aquilo que era muito na manhã, será pouco na tarde, e o que era verdadeiro na manhã, será falso no entardecer. (...) Por isto, a tarde da vida humana deve ter também um significado e uma finalidade próprios, e não pode ser apenas um lastimoso apêndice da manhã da vida" (p.348, 349).
"(...) tenho observado que uma vida orientada para um objetivo em geral é melhor, mais rica e mais saudável do que uma vida sem objetivo, e que é melhor seguir em frente acompanhando o curso do tempo, do que marchar para trás e contra o tempo. (...) o velho que for incapaz de se separar da vida é tão fraco e tão doentio quanto o jovem que não é capaz de construi-la" (p.351).
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