A Associação Junguiana do Brasil, em parceria com FAHUB (Fundação de apoio ao desenvolvimento científico e tecnológico do Hospital da Universidade de Brasília), oferecerá a segunda edição do curso aqui em Brasília.
Este é um espaço para a reflexão de temas que em algum momento e por alguma razão (do meu contexto pessoal ou da minha prática clinica) se tornaram, usando uma expressão gestáltica, importantes FIGURAS no imenso FUNDO existencial.
20 de junho de 2013
12 de junho de 2013
O Transtorno do Pânico numa perspectiva junguiana
Acredito que o palestrante, por ter como referencial a psicologia analítica, abordará o tema a partir de reflexões sobre a imagem mítica de Pã (donde se origina a palavra pânico) e sobre os significados de sua aparição em nossa psique, com suas consequências positivas e negativas.
O mundo civilizado é totalmente estranho a Pã, o deus grego da Natureza em toda a sua extensão (pan, em grego, significa "tudo", "totalidade", daí o termo, por exemplo, pan-americano). Ele, que era portador de aspecto animalesco, com chifres e pernas de bode, morava em cavernas e vagava pelas profundezas das florestas, entre morros e colinas da montanhosa Grécia. Em suas andanças, se divertia caçando animais selvagens, assustando os viajantes e assediando inescrupulosamente as ninfas. Os que precisavam cruzar as florestas e campos,
principalmente à noite, eram tomados por um medo paralisante, temiam assustadoramente a possibilidade de encontrar o irreverente Pã. É dele o domínio da natureza e dos instintos e sua simbologia está ligada ao corpo, à sexualidade, à agressividade e a todos os aspectos que estão mais distantes da identidade consciente, e que por isso mesmo são tão assustadores quando emergem.
Falar psicologicamente de Pã, que foi rejeitado e abandonado por sua mãe logo ao nascer devido à sua estranha aparência, é falar da sombra, dos conteúdos que foram rejeitados pela consciência por serem aparentemente perigosos e "feios". Vale ressaltar que enquanto expressão da totalidade da natureza, Pã contém, em si, aspectos negativos e positivos. Assim sendo, apesar de temido, era conhecido como um deus alegre e amante da música, protetor de rebanhos e pastores.
Abordar o Transtorno do Pânico numa perspectiva junguiana é reconhecer que a aparição de Pã em nossas vidas está relacionada com a existência de aspectos da sombra não integrados, aquela porção de nossa totalidade que habita as profundezas do inconsciente e que pode, diante da iminência de ressurgir em solo consciente, nos levar ao pânico. É reconhecer que a rigidez (de ideias, princípios, atitudes) que até então norteava com segurança nossa andança pelos vales e montanhas da vida pode se tornar tão excessiva e unilateral que, num movimento de compensação, o imoral Pã ("personificação" da sombra) é chamado em cena.
Apesar de ter apresentado apenas um esboço sintético e superficial de uma possível leitura do Pânico sob a ótica da psicologia analítica, considero ampla, rica e profunda a contribuição junguiana ao tema. Não sei se a palestra caminhará pelos significados psicológicos de Pã e seu mito, mas participarei do evento e possivelmente postarei o conteúdo abordado.
19 de maio de 2013
Diante da crítica - a importância do outro no processo de autoconhecimento
Em O trabalho com a sombra mencionei que a forma mais eficiente para
adquirirmos um conhecimento aprofundado sobre nós mesmos, e
principalmente sobre nosso lado
obscuro, é por meio do olhar do outro.
Na análise, esse processo de ampliação da consciência e de assimilação de nossas porções inconscientes ocorre em parceria com o analista, que usa suas técnicas, seu arcabouço teórico e, principalmente, sua sensibilidade ("timing") para ajudar o analisando a ter insights e gradualmente obter uma melhor compreensão do seu funcionamento psíquico inconsciente. Só que essa experiência de autoconhecimento, apesar de ter no setting terapêutico um lugar privilegiado, não se restringe apenas ao contexto psicoterápico. Estamos cotidianamente diante da oportunidade de crescimento pessoal, pois estamos sempre recebendo importantes feedbacks das pessoas que convivem conosco. Ora são diretos, ora surgem nas entrelinhas, mas o que não muda é a dificuldade que normalmente sentimos em aceitá-los.
Em "Diante da crítica", Carlos Hilsdorf apresenta interessantes reflexões sobre como lidar com os feedbacks que recebemos. Não conhecia o autor até ter tido, por acaso, acesso a esse texto. Após uma pequena pesquisa sobre ele, confesso que não me interesso por nenhum do seus livros e sei que não teria me interessado caso tivesse esbarrado com algum deles numa livraria. Mas, por considerar válidas e pertinentes suas pontuações sobre o desenvolvimento da competência para suportar e aproveitar as críticas, compartilho na íntegra seu artigo.
Na análise, esse processo de ampliação da consciência e de assimilação de nossas porções inconscientes ocorre em parceria com o analista, que usa suas técnicas, seu arcabouço teórico e, principalmente, sua sensibilidade ("timing") para ajudar o analisando a ter insights e gradualmente obter uma melhor compreensão do seu funcionamento psíquico inconsciente. Só que essa experiência de autoconhecimento, apesar de ter no setting terapêutico um lugar privilegiado, não se restringe apenas ao contexto psicoterápico. Estamos cotidianamente diante da oportunidade de crescimento pessoal, pois estamos sempre recebendo importantes feedbacks das pessoas que convivem conosco. Ora são diretos, ora surgem nas entrelinhas, mas o que não muda é a dificuldade que normalmente sentimos em aceitá-los.
Em "Diante da crítica", Carlos Hilsdorf apresenta interessantes reflexões sobre como lidar com os feedbacks que recebemos. Não conhecia o autor até ter tido, por acaso, acesso a esse texto. Após uma pequena pesquisa sobre ele, confesso que não me interesso por nenhum do seus livros e sei que não teria me interessado caso tivesse esbarrado com algum deles numa livraria. Mas, por considerar válidas e pertinentes suas pontuações sobre o desenvolvimento da competência para suportar e aproveitar as críticas, compartilho na íntegra seu artigo.
DIANTE DA CRÍTICA
Carlos Hilsdorf
Quando desenvolvemos uma competência nos tornamos
mais fortes diante da vida e de seus desafios. Dentro do rol das melhores
competências que podemos e devemos desenvolver encontramos uma que nitidamente
se destaca: a nossa competência em suportar a pressão das críticas!
As críticas se dividem em dois grandes grupos: as
construtivas e as destrutivas.
Uma crítica é construtiva quando tem por
finalidade contribuir com o nosso aperfeiçoamento. Por aperfeiçoamento devemos
entender o foco em aprimorar nossas forças e diminuir nossas fraquezas.
No caso da crítica construtiva, quem o está criticando vai sempre lhe apontar uma deficiência (fraqueza) ou falta de eficiência (uma força que não está sendo plenamente ou corretamente utilizada). Em ambos os casos esta pessoa está lhe fazendo um favor porque está lhe ajudando a ampliar suas percepções a respeito de si mesmo.
Não é raro que alguém lhe faça uma crítica
inesperada. Nestes casos nossa primeira reação é a surpresa seguida
imediatamente do julgamento de que a crítica só pode ser absurda e
improcedente. É comum julgarmos absurdo ou improcedente aquilo que não passa
pela nossa cabeça. Mas isto não invalida a importância da crítica!
Quanto mais rara for uma crítica, tanto mais
importante ela tende a ser, portanto infinitamente maior a importância de a
ouvirmos com atenção e refletirmos em profundidade sobre ela.
Diante de críticas construtivas o procedimento é
simples. Ouça com toda a atenção, independentemente de suas impressões e
julgamentos com relação ao autor da crítica. Desenvolva um profundo respeito e
gratidão pelas críticas construtivas, elas são sempre um convite ao
aperfeiçoamento e um poderoso remédio contra a vaidade.
Atente para uma questão muito importante: o fato
da intenção da crítica ser construtiva não significa que a pessoa que a fez
tenha habilidade em comunicá-la da melhor forma. Gentileza, boa educação e
habilidade interpessoal não são características comuns a todos os bem
intencionados. Isto significa que em muitas situações uma crítica construtiva,
que muito pode contribuir com sua vida, poderá vir em péssima ''embalagem''.
Preste mais atenção no conteúdo da crítica que na sua forma. Conheço várias
pessoas de valor, sinceras e bem intencionadas que não sabem dizer as coisas
com ''jeitinho''. Afinal por que esperar que as críticas venham apenas de
pessoas craques em relacionamento e comunicação?
Vejamos agora as críticas
destrutivas.
Uma crítica é destrutiva
quando tem por finalidade desestruturar, ferir, magoar ou desorientar. Observe
que o fato de você ter se magoado não significa, necessariamente, que a crítica
tenha sido destrutiva. Alguém pode se magoar por tendência em colocar-se no papel
de vítima, baixa auto-estima, falta de humildade ou excesso de vaidade, e
nestes casos a responsabilidade pela mágoa é toda sua.
A crítica é destrutiva
quando é apresentada com o objetivo claro de causar dano ou ofensa, visando
impedir seu processo natural de evolução. Esta é uma arma muito utilizada por
pessoas presas aos processos de inveja, ciúme e maldade.
Mesmo nestes casos, ouça
atentamente a crítica. Lembre-se que alguém na tentativa de magoá-lo pode,
ainda assim, dizer-lhe uma verdade. Seus oponentes podem ser pessoas
inteligentes e a crítica apesar de maldosa, pode conter elementos verdadeiros.
Neste caso este
''oponente'', por ironia do destino, estará lhe fazendo um bem, desde que você
possua a humildade de analisar e refletir sobre o conteúdo da crítica!
Caso a crítica esteja
fundamentada em conteúdo falso, maledicente ou preconceituoso, considere que
não se atiram pedras em árvores sem fruto; toda tentativa de apedrejamento visa
sempre derrubar os frutos. Inocente ignorância dos apedrejadores, porque, mesmo
conseguindo o feito, se esquecem de que os frutos caídos no chão experimentarão
o tempo e a decomposição e voltarão a frutificar, de uma ou de outra maneira,
pois cada semente dá origem à essência interior que carrega. Já as pedras
caídas no chão permanecerão pedras, e as mãos que as atiraram terminarão
vazias, tão vazias quanto o coração e a alma que lhes ativaram o movimento.
16 de maio de 2013
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