Este é um espaço para a reflexão de temas que em algum momento e por alguma razão (do meu contexto pessoal ou da minha prática clinica) se tornaram, usando uma expressão gestáltica, importantes FIGURAS no imenso FUNDO existencial.

4 de fevereiro de 2013

Abordagem junguiana do sofrimento - Parte 1

 
James Hollis começa seu livro "Os pantanais da alma - nova vida em lugares sombrios" com uma inquietante reflexão  sobre o pensamento, amplamente difundido pela cultura ocidental, de que a meta da vida é alcançar a felicidade. 

Seus argumentos refutam esta ideia e o ponto fulcral de sua tese é o de que a vida é composta tanto por "campinas ensolaradas" quanto por "pântanos escuros", ambos lugares importantes para nossa jornada individual. 

É fácil perceber, mas nem tanto aceitar, que a vida é permeada por incertezas, intempéries  e acontecimentos desagradáveis que transcendem o nosso querer e estão longe do nosso controle. Estamos constantemente nos debatendo com a diferença entre o que gostaríamos e o que realmente encontramos ao nosso dispor. Diante da inevitabilidade das decepções e frustrações, a atitude de considerarmos a felicidade como a suprema meta da vida não é só ilusória, mas também extremamente prejudicial. Pactuando com essa crença corremos o perigo de cair em depressão ou profunda inquietação, pois os reais estados sombrios da alma tornam-se tão indesejados e sem lugar que acabamos negando, rejeitando e reprimindo tudo o que consideramos inadequado em nós, nos outros ou nas situações que enfrentamos. O sofrimento torna-se tão sem sentido, que o sentido curativo que está sempre oculto em nosso sofrimento não pode ser acessado. Como afirma Jung:
“O principal objetivo da terapia psicológica não é transportar o paciente para um impossível estado de felicidade, mas sim ajudá-lo a adquirir firmeza e paciência diante do sofrimento. A vida acontece num equilíbrio entre a alegria e a dor.”
Dependendo da forma como encaramos os desafios e as quedas, o sofrimento que experimentamos em nossos conflitos e "provações" pode assumir um aspecto muito positivo: o de chamar a atenção para um indesejável estado de coisas e inspirar o desejável estado de reflexão e mudança. Diante das crises e momentos de infelicidade, nos damos conta de que alguma atitude precisa ser tomada e "sofrer estoicamente, reagir heroicamente ou lamentar nossa condição parece ser uma escolha onerosa, porém inevitável" (Hollis, p.9). Apesar de frequentemente estarmos perdidos nos sombrios estados da culpa, da dor, da traição, da dúvida, da depressão e da raiva,
"Quando formos capazes de enxergar nossas próprias mesquinharias, ciúmes, ódios, rancores etc., então isso poderá se reverter num bem positivo, pois em tais emoções tão destrutivas está armazenada muita energia vital, e quando se tem tal energia à disposição, ela poderá ser encaminhada para fins positivos" (von Franz).
Quando evitamos esses sombrios estados da alma e perseguimos freneticamente o desejo de sermos felizes e despreocupados, perpetuamos o sofrimento. Não há descanso, não há relaxamento, estamos constantemente em estado de alerta, lutando contra as intempéries, contra o natural fluxo da vida de contração e expansão, fluxo e refluxo, subida e descida... O ego, demasiadamente apegado ao controle, à segurança e à cessação do conflito, "desconsidera, reprime, nega e foge dos pantanais. No entanto, grande parte da nossa vida é vivida a partir dessas regiões, e grande parte da prisão da neurose é uma negação dessa esfera" (Hollis, p.19).

Para a psicologia junguiana, que reconhece as polaridades da vida e considera a importância tanto da campina quanto do pântano, a meta da vida não pode ser a felicidade, mas sim a busca do significado. Buscar o verdadeiro sentido para o que nos acontece é uma atitude com grande poder curativo: nos libera da vitimização e imprime em nossa caminhada a heroica capacidade de resignificar, mudar e fluir. E apesar do significado nem sempre ser colorido e florido, ele é sempre real; e é só com os pés bem enraizados na realidade, seja ela qual for, que podemos trilhar nosso caminho e decidir o melhor rumo. Como afirma Jung, "o sentido torna suportável uma grande parte das coisas - talvez tudo". Ele nos conecta com a realidade, inunda as trevas com luz e nos faz atravessar o sofrimento

A "revelação" do significado nos é dada pela reflexão que, psicologicamente falando, pode ser entendida como o ato de "produzir consciência". De acordo com o Dicionário Crítico de Análise Junguiana  (http://www.rubedo.psc.br) a reflexão é
"um voltar-se para trás ou para dentro a partir da consciência, de modo que, em vez de uma reação imediata ou não premeditada a estímulos objetivos, intervém uma elaboração psicológica. O efeito de tal elaboração é imprevisível e, em consequência da liberdade para refletir, respostas individualizadas e relativizadas são possíveis".
A consciência tem, portanto, não apenas uma função cognitiva, mas também uma função espiritual: a de ampliar e enriquecer o sentido de nossa existência. Por intermédio dela, podemos tornar nossa jornada mais significativa. E essa é uma de nossas mais profundas necessidades, sobretudo numa sociedade hedonista e consumista como a nossa.

Significado, reflexão, ampliação da consciência e integração do inconsciente são aspectos que nos conduzem ao autoconhecimento e à verdadeira felicidade. Como bem percebeu Jung, "só aquilo que somos realmente tem o poder de curar-nos".

Somos luz e sombra e "a tarefa da individuação é a totalidade (...) que inclui a descida que a psique frequentemente impõem ao ego relutante" (Hollis, p. 19). A terapia pretende, justamente, auxiliar o ego em sua jornada de rendição ao Self (Eu maior). A partir das reflexões suscitadas pelo processo terapêutico a integração dos aspectos inconscientes se torna possível. A análise é uma valiosa ferramenta de auxílio ao confronto saudável e promissor com o mal-estar psíquico (ansiedades, medos, conflitos, depressões etc.).  Seu "objeto" é o inconsciente (seus conteúdos e processos) e o seu o objetivo é estabelecer um relacionamento consciente com as motivações inconsciente que determinam nossas ações e escolhas. É conhecer e transformar as condições psíquicas que estão sendo sentidas como intoleráveis devido as suas interferências negativas na vida consciente.  

Na medida em que passamos a aceitar e investigar a interação entre a vida consciente e inconsciente, nos tornamos mais preparados para o fato de que  "(...) nossa vida psíquica frequentemente agirá fora do controle do ego, que seremos puxados para baixo em direção aos pantanais, e que iremos sofrer lá" (Hollis, p. 194). A boa noticia é que portando a luz da consciência  podemos descer às profundezas da almas sem se perder. Com ela iluminaremos o caminho, encontraremos o significado e subiremos renovados e fortificados. Nas palavras de Hollis (p.195):
"(...) em cada um desses estados do pantanal existe o desafio implícito de descobrir seu significado e a mudança de comportamento ou atitude que ele pode exigir. Enfrentar cada pantanal como uma pergunta implícita - qual o significado da minha depressão, a que a ansiedade está ligada na minha história, pelo que sou possuído - nos permite ser ativos em vez de passivos no nosso sofrimento".
Ao empreendermos a tarefa/desafio que cada pantanal nos oferece, conseguimos nos libertar da fantasiosa felicidade permanente e da sensação de derrota, culpa ou vergonha de nunca alcançá-la plenamente. Somos capazes, então, de transpor o sofrimento e seguir em direção a uma consciência expandida, a única capaz de despertar nossa criatividade e nosso potencial curativo. A única capaz de nos sintonizar com uma experiência de felicidade interior mais sólida e real do que aquela difundida nos famosos "comerciais de margarina".

Anaïs Nin nos apresenta o que eu chamaria de um legítimo convite feito pelo processo terapêutico: 
“E chegou o dia em que o risco de continuar espremido dentro do botão era mais doloroso que o de desabrochar”




7 comentários:

Silomar Godinho disse...

Excelente projeto, gostei !

Anônimo disse...

Ando me perguntando se essas descidas ao confins da alma não machuca mais com tanto sofrimento irracional do que simplesmente se deixar em paz e nos ajustarmos a realidade com um processo mais suave ( talvez de reeducação , de desenvolvimento da espiritualidade ....) do que se lançar ao escrutínio da alma, do espírito e do corpo....

Sinto ser igualmente doloroso o sofrimento, igualmente desumano. Fico a pensar se não exite outra forma de expandirmos a consciência sem nos identificarmos com o sofrimento, sem nos tornamos vítimas do sofrimento racional ou irracional?

Paula Medeiros disse...

Que comentário importante! Acho suas reflexões realmente pertinentes e sinto que sua pergunta já contém, de alguma forma, uma espécie de resposta.

Sim, existe um caminho mais leve, suave e amoroso de expandir a consciência, e ele depende justamente da NÃO identificação com o sofrimento.

Não existe expansão da consciência se nos identificamos com o sofrimento. Expansão da consciência e identificação são termos inconciliáveis. O resultado da identificação é sempre desastroso e falei um pouco sobre isso no post "Estou me sentindo tão mal, desprezível, miserável" e um pouco também no post que é continuidade desse, a parte 2.

Se há identificação (sentimento de identidade: "eu sou o sofrimento"), sofremos além da medida, sofremos "o desnecessário" e sofremos ilimitado, a perder de vista.
Por outro lado, se nos identificamos como as "campinas ensolaradas", sofreremos também, pois alegria constante é ilusão.

Ao afirmar isso não estou me aliando àquela ideia de que "se ficar o bicho pega e se correr o bicho come", não acredito que o sofrimento seja nossa realidade última. Penso que nossa realidade máxima é a transitoriedade. Não é uma questão de "isso OU aquilo", mas sim de "isso E aquilo". A consciência expandida (unificada) abarca as dualidade, o lado positivo e negativo da existência, sem se apegar a nenhum dos polos, sem negar nenhum dos lados, sem "unilateralizar". A consciência expandida é puro fluxo...

Quando nos opomos a um dos lados e nos agarramos/apegamos (identificação) ao outro, fatalmente aumentaremos nosso sofrimento. Estaremos vivendo na lógica do OU e não na do E.

Paula Medeiros disse...

Tudo fica mais leve quando atravessamos a noite sabendo que o dia fatalmente nascerá... Tudo fica muito pesado quando nos identificamos com a noite. Esse emaranhamento na escuridão pode ser tão profundo que mesmo quando a noite finda não conseguimos sequer ver que o dia clareou (e que clareia sempre, assim como a noite diariamente chega).

Se estamos presos num quarto escuro e nos desesperamos, nos descontrolamos, tatearemos loucamente as paredes e passaremos batido pelo interruptor. Se nos resignamos (no sentido letárgico da palavra) ou negamos o desconforto de ficar no escuro através de eufemismos, nos enfraquecemos a tal ponto que perdemos o pulso para procurar o interruptor QUE ESTÁ LÁ.

Essa "descida aos confins da alma" EXIGE, de fato, uma postura muita especifica, do contrário, concordo com você, estaremos nos lançando em areia movediça. E, a meu ver, é aí que entra o processo terapêutico e um terapeuta/parceiro competente para nos acompanhar nessa jornada, que visa SEMPRE a libertação e a superação de tudo o que está bloqueando nossa paz.

"Identificar-se com as facetas feias e identificá-las são situações totalmente diferentes. No momento que as identifica, você deixa de se identificar com elas. É por isso que é tão libertador reconhecer o pior que há na personalidade, depois de vencer a resistência sempre presente" (Pathwork, palestra 189).

Quando aprendemos a identificar, nomear e observar com imparcialidade, objetividade e compaixão os aspectos destrutivos (em nós e no mundo), nos tornamos aquele que identifica, nomeia e observa. Não somos "o mal, o feio, o triste, o doloroso...", somos o observador!

O contato com a realidade do "mal, do feio, do triste, do doloroso..." não precisa e não deve ser destrutivo, nocivo ou avassalador. Não é necessário dar um peso maior ou menor para essas "questões", nem um tamanho maior ou menor. Elas simplesmente tem o tamanho e o peso que tem. São apenas um dos lados da realidade total...

Não somos, e não precisamos ser escravos ou vítimas das "noites escuras da alma". Precisamos apenas atravessá-la! Tal como Jesus (e há outros que eu poderia citar - como Buda)que ao não se identificar com o demônio e ao identificar as "tentações" conseguiu atravessar os 40 dias no deserto e seguir sua jornada.

Espero ter contribuído um pouco com suas reflexões e estou inteiramente aberta para esse diálogo, caso queria prosseguir.
Grata pelo seu compartilhar! Foi importante para mim refletir sobre tudo isso

Anônimo disse...

Me sinto feliz com sua atenção e cuidado.
Quero sim oportunamente continuar compartilhando as inquietações da minha alma.
Me chamo suely, prazer em conhecer você e até breve.

Felipe Silva disse...


Eu, Felipe Luiz Gomes e Silva, gostei muito do texto. Compartilhei. Tenho lido livros de junguianos e do próprio. Aprendo muito. Sobre dependência química li o primeiro. Nascer não basta de Luigi Zoja. Muito bom. O problema da dependência química aumenta cada dia, percebo que a psicologia profunda não tem se debruçado, como deveria, sobre a questão. Há textos no blog?

Parabéns pelo texto.

Saudações,


Felipe Luiz Gomes e Silva

São Carlos - São Paulo.

Paula Medeiros disse...

Oi Felipe,
Que bom que você tem feito leituras junguianas, a psicologia profunda é realmente muito rica e nos transformamos no contato com ideias que alargam nossos horizontes. Não conheço o livro que você mencionou, mas me interessei muito. Agradeço pela dica! Vou adquiri-lo e quem sabe escrever algo sobre o tema aqui no blog. A adicção é um assunto realmente importante e tenho interesse em refletir mais sobre o comportamento compulsivo. Espero em breve poder compartilhar minhas reflexões.
Grata por sua contribuição.
Abraço