Este é um espaço para a reflexão de temas que em algum momento e por alguma razão (do meu contexto pessoal ou da minha prática clinica) se tornaram, usando uma expressão gestáltica, importantes FIGURAS no imenso FUNDO existencial.

28 de dezembro de 2012

Oração da Serenidade e o processo de autoconhecimento via análise





Concedei-me, Senhor, a serenidade necessária 
para aceitar as coisas que não posso modificar; 
a coragem para modificar aquelas que posso;
 e a sabedoria para distinguir umas das outras


Não há consenso entre pesquisadores sobre as origens e a autoria da Oração da Serenidade. Mas, sejamos religiosos ou não, pertencentes a esta ou àquela igreja, estas palavras, consideradas como uma prece ou apenas como a expressão de um desejo maior, podem ser como guias para a alma que busca realizar-se em toda sua potencialidade.

Num contexto terapêutico, uma das várias possibilidades de entendimento desta Oração é a seguinte:

No processo de resignificação do passado, o confronto (na acepção de "encontro face a face" e não de batalha!) com o inconsciente (e com todo o material psíquico/emocional que contém as respostas que procuramos e precisamos para fluir em nosso processo de crescimento) torna-se cada vez mais proveitoso na medida em que aceitamos que há acontecimentos que não podemos modificar. Como diz Jean-Paul Sartre "Não importa o que o passado fez de mim. Importa é o que farei com o que o passado fez de mim". E isso exige coragem, pois o papel de vítima só nos exige resignação, passividade e submissão. A serenidade que experimentamos ao nos dedicarmos ao processo de  conciliação dos opostos (o que posso e o que não posso mudar, por exemplo) é consequência de um tipo de aceitação bem diferente: aquela que promove não passividade, estagnação ou revolta, mas sim mudança, responsabilidade, superação e perspectivas futuras.  


“Afinal, não é apenas o passado que nos condiciona, mas, também o futuro, que muito tempo antes já se encontra em nós e lentamente vai surgindo de nós mesmos.”

(Jung, O Desenvolvimento da Personalidade, p. 115)







1 de dezembro de 2012

O casamento como veículo para o trabalho com a sombra



O livro Ao encontro da sombra (Zweig e Abrams) é uma coletânea de artigos sobre as diversas manifestações do lado escuro da natureza humana: no seio da família, nos relacionamentos íntimos, na sexualidade, no trabalho, na espiritualidade, na política...

No artigo "O encontro do oposto no parceiro conjugal", Maggie Scarf elucida de forma brilhante o quanto as características do nosso eu reprimido podem coincidir (devido a identificação projetiva) com as características do ser amado. Quando nos relacionamos com alguém que é o nosso oposto (passivo/agressivo, introvertido/extrovertido, religioso/ateu, comunicativo/reservado), e isso não é nada incomum!, o parceiro acaba por se tornar o portador de nossas fraquezas, deficiências e aptidões/qualidades latentes. Torna-se, ao mesmo tempo, fonte de atração e repulsão. Inicialmente nos atraímos pela possibilidade de compensação que o outro representa (uma mulher tímida, por exemplo, viverá sua extroversão via marido, permitindo que ele fale por ela) mas, a longo prazo, a não integração dos aspectos que estão latentes em nós e evidentes no outro acarretará uma série de conflitos: estaremos, diariamente, "dormindo com o inimigo", estaremos diante daquele que personificou nossa sombra e que cotidianamente nos expõe à nossas limitações.

 O encontro do oposto no parceiro conjugal

                                                         Maggie Scarf

"Um fato da realidade conjugal, bem conhecido pelos especialistas nessa área, é que as qualidades citadas pelos parceiros como as que primeiro os atraíram um para o outro coincidem com aquelas que são identificadas como as fontes de conflito no decorrer do relacionamento. As qualidades "atraentes" recebem, com o tempo, novos rótulos; tornam-se as coisas más e difíceis do parceiro, os aspectos de sua personalidade e comportamento que são vistos como problemáticos e negativos.
Por exemplo, o homem que se sentiu atraído pelo calor, empatia e fácil sociabilidade da esposa poderá, em algum momento futuro, redefinir esses mesmos atributos como "estridência", "intromissão" e uma maneira "superficial" de se relacionar com os outros. A mulher que inicialmente valorizava o marido pela sua confiabilidade, previsibilidade e pelo senso de segurança que ele lhe oferecia, poderá, ao longo do caminho, condenar essas mesmas qualidades como tediosas, enfadonhas e redutoras. E é assim que os admiráveis e maravilhosos traços do parceiro tornam-se as coisas feias e terríveis que a pessoa gostaria de ter percebido antes! Embora essas qualidades sejam sempre idênticas, em algum momento do relacionamento elas ganham nomes diferentes.
As coisas mais atraentes no parceiro também são, em geral, as que têm maior carga de sentimentos ambivalentes. É por isso que minhas conversas com casais sempre começam do mesmo modo que iniciei a minha entrevista com os Brett, sentados lado a lado à minha frente.  
— Digam-me — perguntei ao jovem casal —, qual foi a primeira coisa que os atraiu no outro?
— Meu olhar passou de Laura, atenta e observadora, para o rosto ligeiramente cansado de seu marido Tom, — O que é que você acha que a fez especial para ele... e você, especial para ela?
Por mais mundana que me parecesse a pergunta, ela provocou no casal a costumeira reação de surpresa e até mesmo de susto. Laura respirou fundo, pegou uma mecha de seus longos cabelos louro-escuro e lançou-a sobre o ombro. Tom parecia estar a ponto de saltar mas, em vez disso, afundou-se ainda mais no macio sofá marrom. Viraram-se um para o outro, com um sorriso; Laura enrubesceu e, então, os dois caíram na risada.
O que ficou claro é que os Brett viam a si mesmos como tipos humanos muito diferentes — como pólos opostos, em muitos sentidos.
Quase no fim da nossa primeira conversa, por exemplo, eu lhes perguntei: — Se alguém que vocês dois conhecem... digamos, um amigo ou uma pessoa da família... estivesse descrevendo o relacionamento de vocês para alguém de fora, o que vocês acham que ele diria?
— Improvável — respondeu Tom de imediato, com um sorriso.
— Improvável? — Por quê? — perguntei. — Ah, sei lá — ele encolheu os ombros —, ler jornal ou ir à igreja, cinismo ou fé em Deus... Eu sou muito lógico e reservado, e a Laura é exatamente o oposto.
Ele hesitou e olhou para Laura, que assentia com a cabeça e mantinha uma expressão ao mesmo tempo compungida e alegre. — Você é calmo e passivo — admitiu ela—, e eu estou sempre acesa, pronta para o que der e vier. — Ele concordou e me disse: — Nós somos diferentes em tudo o que se possa imaginar...
Na verdade, como muitos casais que parecem viver em casamento de opostos, eles estavam lidando com o mais penetrante de todos os problemas conjugais: distinguir quais os sentimentos, desejos, pensamentos, etc. que estão dentro de um e quais os que estão dentro do parceiro.
Esse dilema está relacionado com a demarcação das fronteiras pessoais. A principal causa de angústia nos relacionamentos íntimos e responsáveis é, na verdade, uma confusão básica entre saber exatamente o que está acontecendo na nossa própria cabeça e o que está acontecendo na cabeça do parceiro.
Muitos casais, como os Brett, parecem ser pólos opostos — duas pessoas totalmente diferentes.  São como marionetes num espetáculo: cada um deles desempenha um papel bem diferente do outro na parte do palco que está aberta ao olhar do observador objetivo; mas, fora  da vista, os cordões das marionetes se emaranham. Eles estão profundamente enredados e emocionalmente interligados, abaixo do nível da percepção consciente de cada um. Pois cada um deles incorpora, carrega e expressa pelo outro os aspectos reprimidos do eu (o ser interior) do outro.
Examinando o relacionamento dos Brett, o que parecia estar ocorrendo era uma divisão emocional do trabalho. Era como se aquele casal tivesse tomado certos desejos humanos, atitudes, emoções, modos de se relacionar e se comportar — uma vasta gama de sentimentos e reações que poderiam ser partes integradas do repertório de uma pessoa — e os repartisse à moda do "eu fico com isto e você fica com aquilo".
 Como a maioria dos casais, eles fizeram essa "partilha" por meio de um acordo inconsciente, não-verbalizado mas muito eficaz. No seu relacionamento, Laura ficava com o otimismo e Tom com o pessimismo; ela acreditava em tudo, ele era o cético; ela queria abertura emocional, ele queria guardar-se para si mesmo; ela se aproximava e ele se afastava — o homem fugindo da intimidade. Juntos, formavam um organismo adaptativo plenamente integrado; só que Laura tinha que cuidar de toda a inspiração e Tom, de toda a expiração.
No entanto, se Laura, no palco, parecia querer total intimidade, honestidade, integridade e unidade, fora do palco ela e Tom tinham realmente um acordo. Sempre que ela tentava aproximar-se dele, o cordão da autonomia de Tom era ativado e ele era impelido — de um modo quase reflexo — a se afastar de imediato. Ela dependia dele para preservar o espaço necessário entre ambos.
Pois Laura, como qualquer outra pessoa, precisava de alguma autonomia própria — algum território pessoal no qual ela pudesse ser uma pessoa por direito próprio, buscar seus próprios desejos e objetivos individuais. Mas para Laura, satisfazer suas próprias necessidades independentes era percebido como algo errado e perigoso — algo que uma mulher adulta sadia não faz. Para ela, o papel certo, como mulher, era concentrar-se em permanecer próxima, no relacionamento; ela não conseguia reconhecer suas necessidades autônomas como algo que existia dentro dela, algo que ela realmente queria. Ela só tinha consciência das necessidades do eu (o eu separado e independente) na medida em que essas necessidades existiam no parceiro e eram expressadas pelo parceiro.
Do mesmo modo, o desejo natural de Tom de se aproximar intimamente de outra pessoa era uma necessidade que ele via, não dentro de si mesmo, mas como algo que basicamente existia em Laura. A necessidade de estar próximo de sua parceira, no contexto de um relacionamento confiante e mutuamente revelador, era vista como necessidade dela.  Tom nunca sentia isso como um desejo ou uma necessidade que se originava dentro do seu próprio ser, Ele era, a seus próprios olhos, auto-suficiente; ou seja, ele bastava a si mesmo.
Mas, ao mesmo tempo em que Laura dependia de Tom para se afastar quando ela se aproximava, Tom dependia de Laura para tentar a aproximação a fim de se sentir necessário e desejado — íntimo.
Em lugar de expressar diretamente qualquer desejo ou necessidade de intimidade (ou mesmo conscientizar-se desses desejos e sentimentos e assumir a responsabilidade por eles), Tom precisava dissociá-los de sua consciência. Esses pensamentos e desejos o faziam sentir-se demasiado exposto, demasiado vulnerável! Quando queria proximidade, ele precisava sentir esse desejo como se viesse da esposa; ele precisava assegurar-se, sem qualquer reconhecimento consciente do que estava fazendo, de que o "cordão" da intimidade de Laura era puxado. Uma maneira de fazê-lo, talvez, seria adotar um ar sentimental e abstraído para que ela ficasse a se perguntar se ele não estaria pensando em Karen. E então Laura iria persegui-lo ansiosamente... em busca do intercâmbio íntimo que ele próprio desejava.
O que acontecia no relacionamento desse casal é extremamente comum nos casamentos em geral. O conflito que os dois parceiros estavam enfrentando — um conflito entre querer satisfazer suas próprias necessidades individuais e querer satisfazer as necessidades do relacionamento — foi dividido igualmente entre eles. Em vez de serem capazes de admitir que ambos queriam intimidade e que ambos queriam buscar seus próprios objetivos independentes — ou seja, que o conflito autonomia/intimidade era um conflito que existia dentro da cabeça de cada um — os Brett, inconscientemente, fizeram esse acordo secreto.
Laura nunca precisaria assumir conscientemente sua necessidade de um espaço pessoal; Tom nunca precisaria admitir para si mesmo seu próprio desejo de ser emocionalmente aberto, confiante e íntimo. Ela carregava, pelos dois, a necessidade de intimidade (necessidade do relacionamento). Ele carregava, pelos dois, a necessidade de autonomia (a necessidade que cada pessoa tem de perseguir seus objetivos individuais). Laura, portanto, sempre parecia querer estar um pouco mais perto e Tom sempre parecia querer estar mais distante e desimpedido.
O resultado foi que, em vez de um conflito  interior (algo que existia dentro do mundo subjetivo de cada um), o dilema desse casal tornou-se um conflito interpessoal — um conflito que teria de ser constantemente travado entre eles.
Essa transição de um problema intrapsíquico (ou seja, um problema dentro da mente de um indivíduo) para um conflito interpessoal (ou seja, uma dificuldade que duas pessoas enfrentam) ocorre por meio da identificação projetiva.
Esse termo refere-se a um mecanismo mental muito penetrante, traiçoeiro e geralmente destrutivo, que envolve a projeção dos aspectos negados e reprimidos da experiência interior de uma pessoa sobre o seu parceiro íntimo e, a seguir, a percepção desses sentimentos dissociados como existentes no parceiro. Não apenas os pensamentos e sentimentos indesejáveis são vistos como estando dentro do parceiro, como também o parceiro é encorajado, por meio de "deixas" e provocações, a comportar-se como se eles lá estivessem! E então a pessoa identifica-se indiretamente com a expressão, pelo parceiro, das emoções, pensamentos e sentimentos reprimidos.
Um dos melhores e mais claros exemplos do modo como a identificação projetiva opera é mostrado pelo homem totalmente não-agressivo e que jamais se enraivece. Esse homem, que é singularmente destituído de raiva, só pode perceber os sentimentos de raiva à medida que eles existem numa outra pessoa — na esposa, é mais provável. Quando algo perturbador acontece a esse homem que jamais se enraivece, e ele experimenta emoções de raiva, ele não terá um contato consciente com elas. Ele não vai saber que está com raiva, mas ai ficar muito feliz se detonar uma explosão de hostilidade e raiva na esposa.
A esposa, que talvez não estivesse sentindo raiva alguma antes da interação, de repente descobre que está dominada pela raiva; na verdade, sua raiva, que parecia dever-se a qualquer outro motivo, é a raiva que está sendo vivida pelo marido. Num certo sentido, com isso ela está "protegendo" o marido contra certos aspectos do seu ser interior que ele não consegue assumir e admitir conscientemente.
O marido que jamais se enraivece pode então se identificar com a expressão, pela esposa, da raiva que ele reprimiu sem jamais precisar assumir responsabilidade pessoal por essa raiva — nem mesmo em termos de se conscientizar do fato de que, para começar, quem estava com raiva era ele! E é muito frequente que os sentimentos de raiva, reprimidos com tanta firmeza dentro do eu, sejam criticados no parceiro com a mesma severidade, Numa situação de identificação projetiva, o marido que jamais se enraivece geralmente se horroriza diante do temperamento violento e das expressões e comportamentos impulsivos e descontrolados da mulher!
Do mesmo modo, a pessoa que jamais se entristece talvez só veja suas próprias depressões à medida que elas se expressam no parceiro (que, nessas circunstâncias, é visto como a pessoa que carrega a tristeza e o desespero por ambos).
De modo geral, as projeções tendem a ser  intercâmbios  — um "comércio" de partes reprimidas do eu, que os dois membros do casal concordam em fazer. E, então, cada um deles vê no outro as coisas que não consegue perceber em si mesmo... e luta, incessantemente, para mudá-las".


12 de novembro de 2012

O trabalho com a sombra

  

“Cada ser é uma flor a desabrochar sob a luz da consciência do outro” 
                                                                                             (Paule Salomon)

    Na psicoterapia de base junguiana o primeiro passo dado no processo de ampliação da consciência é o estabelecimento do contato com a persona e com a sombra.
   O simples fato de reconhecermos o uso de máscaras sociais, chamadas por Jung de persona, nos conduz à importante ideia de que há muita coisa por de trás delas, muita coisa que queremos ou aprendemos que devemos ocultar em nome da adaptação social. Os aspectos reprimidos em prol da aceitação compõem o que Jung chamou de sombra.
  Se por um lado, "só se alcança o objetivo social com sacrifício da totalidade da personalidade" (Jung, A Natureza da Pique, p. 344); por outro, tudo aquilo que foi sacrificado e reprimido não deixa simplesmente de existir. A sombra, continua atuando em nossas vidas de forma inconsciente.
"São muitos - muitíssimos - os aspectos da vida que poderiam ser igualmente vividos, mas jazem no depósito de velharias, em meio a lembranças recobertas de pó; muitas vezes, no entanto, são brasas que continuam acesas por debaixo de cinzas amarelecidas" (Jung, A Natureza da Pique, p. 344).
   Persona e sombra guardam entre si uma estreita relação e no livro “Jung. O Mapa da Alma”, Murray Stein explica muito bem essa importante vinculação:


“A sombra e a persona são ‘pessoas’ estranhas ao ego que habitam a psique junto com a personalidade consciente que nós próprios sabemos ser. Há a ‘pessoa pública’ e oficial a que Jung chamou de persona, a qual está mais ou menos identificada com a consciência do ego e forma a identidade psicossocial do indivíduo. E, no entanto, é também, tal como a sombra, alheia ao ego, embora o ego se sinta mais à vontade com a persona pelo fato de ela ser compatível com normas e costumes sociais. A personalidade da sombra não está visível e só aparece em ocasiões especiais. O mundo ignora, em maior ou menor grau, a existência dessa pessoa. A persona está muito mais em evidência. Ela desempenha um papel oficial, cotidiano, de adaptação ao mundo social. Sombra e persona são como dois irmãos (...); uma está à vista do público, a outra está escondida e é solitária. São um estudo em contraste. Se uma é loira, a outra é morena; se uma é racional, a outra é emocional. (...) Uma complementa, ou, mais frequentemente, opõe-se à outra. Persona e sombra são usualmente o oposto mais ou menos exato da outra e, no entanto, são tão chegadas quanto o podem ser dois gêmeos” (p.100).

    Como o ego se sente mais à vontade com a persona e ela pode nos oferecer uma ideia mais ou menos precisa do que está oculto na sombra, é com ela que normalmente começamos o trabalho de autoconhecimento. O primeiro desafio é a desidentificação com persona, ou seja, a conscientização de que somos mais do que um "papel social" (advogado, analista, professor) ou um papel sexual (mãe, pai). É a compreensão de que somos muito mais do que aquilo que socialmente nos foi imposto, exigido ou por nós escolhido. O confronto com esta verdade abre espaço para o confronto com aquelas porções reprimidas e inconscientes, os aspectos sombrios de nossa personalidade, características/desejos/tendências que tiveram que permanecer "na sombra", na ausência da luz da consciência.
   Mas esse trabalho de conscientização do que foi "colocamos por debaixo do tapete", apesar de extremamente necessário para a restauração da totalidade da personalidade, não é simples, nem prazeroso. Resistir ao contato com o nosso lado escuro é quase que inevitável, pois a negação do nosso “eu inferior” é diretamente proporcional ao medo que temos da aniquilação, da rejeição e da perda do amor por parte daqueles que consideramos.
   A crença que subjaz a esta relutância é a de que nossa reputação e auto-estima sofrerão um golpe mortal caso os fatos verdadeiros - embora ocutos e negligenciados - de nós mesmos sejam reconhecidos. De fato poderemos sair do confronto com nossas verdades desagradáveis com uma sensação de derrotada e a acorrência dessas situações de desespero e fracasso são melhor explicadas no post "Estou me sentindo tão mal, desprezível, miserável'" - O contato errôneo e nocivo com a sombra.
  O importante é entender que sabotamos o nosso crescimento quando nos filiamos à ideia de que é muito alto o preço a ser pago pelo reconhecimento dos aspectos que são contrários ao nosso eu psicossocial. Mas na verdade, o preço da negação é que é exorbitante; ela nos impede de crescer e nos enclausura numa experiência rígida e unilateral da realidade (tanto interna quando externa).
   Por ser a sombra uma porção desconhecida, por ser bastante desagradável reconhecê-la como pertencente a nossa personalidade e por serem poderosas as defesas do eu contra a sua conscientização, não é fácil acessá-la via introspecção. O processo de reflexão sobre o que nos ocorre intimamente, a observação e descrição dos nossos conteúdos internos - pensamentos e sentimentos - nos conduzem apenas até um certo ponto, que é bem limitado. 
   Como salientado na epígrafe desse texto, somos como uma espécie de flor a desabrochar sob a luz da consciência do outro. O que significa afirmar que a única forma de adquirimos um conhecimento aprofundado sobre nós mesmos, e principalmente sobre o nosso lado obscuro, é através do olhar do outro. Seja o analista, que pode ajudar, de forma segura e saudável, no processo de contato e conscientização da sombra; ou pessoas do nosso convívio, que, de uma forma ou de outra, estão sempre nos dando importantes feedbacks.
   Assim sendo, o exercício de perguntar a alguém, que tenha anos de estreita convivência conosco, sobre suas sinceras impressões ao nosso respeito é uma investida mais eficiente do que a autoanálise ou a introspecção. 
   Refletir sobre aqueles que nos incomodam intensamente também é uma forma de, através do outro, nos conhecermos melhor. Como propõe Whitmont (e sugiro que o experimento seja feito não com um amigo, mas consigo próprio): 

 “Peça para um amigo lhe descrever o tipo de personalidade que ele acha mais desprezível, mais insuportável, mais odiosa e de convívio mais impossível; ele descreverá as suas próprias características reprimidas – uma autodescrição que é absolutamente inconsciente e que, portanto, sempre o tortura quando ele recebe seu efeito de uma outra pessoa. Essas mesmas qualidades são tão inaceitáveis para ele precisamente porque elas representam o seu lado reprimido; só achamos impossível aceitar nos outros aquilo que não conseguimos aceitar em nós mesmo. Qualidades negativas que não nos incomodam de modo intenso ou que achamos relativamente fácil de perdoar – se é que precisamos perdoá-las – em geral não pertencem à nossa sombra” (Ao encontro da sombra, p.36).

   Certamente encontraremos um material muito interessante se nos aventuramos a descrever o tipo de personalidade que mais nos incomoda. Esta pessoa, inevitavelmente, refletirá a imagem que não queremos ver quando nos olhamos no espelho em busca apenas da persona e de tudo aquilo que queríamos ou deveríamos ser... 
      Essa breve reflexão sobre o importante trabalho a ser desenvolvido com sombra e a persona pode ganhar um sentido mais concreto com as palavras de Gibran:

"Um dia, muito antes de muitos deuses terem nascido,
despertei de um sono profundo e notei que todas as minhas máscaras tinham sido roubadas
– as sete máscaras que eu havia confeccionado e usado em sete vidas –
e corri sem máscara pelas ruas cheias de gente gritando:
 “Ladrões, ladrões, malditos ladrões!”
Homens e mulheres riram de mim e alguns correram para casa, com medo de mim.
E quando cheguei à praça do mercado, um garoto trepado no telhado de uma casa gritou:
“É um louco!” 
Olhei para cima, para vê-lo.
E então o sol beijou pela primeira vez minha face nua.
Pela primeira vez, o sol beijava minha face nua,
e minha alma inflamou-se de amor pelo sol,
e não desejei mais minhas máscaras.
E, como num transe, gritei: 
“Benditos, benditos os ladrões que roubaram minhas máscaras!”
Assim tornei-me louco.
E encontrei tanto liberdade como segurança
em minha loucura: a liberdade da solidão
e a segurança de não ser compreendido,
pois aquele que nos compreende
escraviza alguma coisa em nós".

Gibran Khalil Gibran



3 de novembro de 2012

Sobre a Transitoriedade

Belíssimo texto de Freud (1916/1915), retirado do vol XIV das Obras Completas – Ed. Imago, para refletirmos sobre a transitoriedade da vida e sobre a inevitável participação de Cronos e Kairos, os deuses gregos do tempo...com os quais, como canta Caetano, devemos entrar em acordo para que possamos ser dignos do prazer legítimo...


   Não faz muito tempo empreendi, num dia de verão, uma caminhada através de campos sorridentes na companhia de um amigo taciturno e de um poeta jovem mas já famoso. O poeta admirava a beleza do cenário à nossa volta, mas não extraía disso qualquer alegria. Perturbava-o o pensamento de que toda aquela beleza estava fadada à extinção, de que desapareceria quando sobreviesse o inverno, como toda a beleza humana e toda a beleza e esplendor que os homens criaram ou poderão criar. Tudo aquilo que, em outra circunstância, ele teria amado e admirado, pareceu-lhe despojado de seu valor por estar fadado à transitoriedade.
   A propensão de tudo que é belo e perfeito à decadência, pode, como sabemos, dar margem a dois impulsos diferentes na mente. Um leva ao penoso desalento sentido pelo jovem poeta, ao passo que o outro conduz à rebelião contra o fato consumado. Não! É impossível que toda essa beleza da Natureza e da Arte, do mundo de nossas sensações e do mundo externo, realmente venha a se desfazer em nada. Seria por demais insensato, por demais pretensioso acreditar nisso. De uma maneira ou de outra essa beleza deve ser capaz de persistir e de escapar a todos os poderes de destruição.
   Mas essa exigência de imortalidade, por ser tão obviamente um produto dos nossos desejos, não pode reivindicar seu direito à realidade; o que é penoso pode, não obstante, ser verdadeiro. Não vi como discutir a transitoriedade de todas as coisas, nem pude insistir numa exceção em favor do que é belo e perfeito. Não deixei, porém, de discutir o ponto de vista pessimista do poeta de que a transitoriedade do que é belo implica uma perda de seu valor.
   Pelo contrário, implica um aumento! O valor da transitoriedade é o valor da escassez no tempo. A limitação da possibilidade de uma fruição eleva o valor dessa fruição. Era incompreensível, declarei, que o pensamento sobre a transitoriedade da beleza interferisse na alegria que dela derivamos. Quanto à beleza da Natureza, cada vez que é destruída pelo inverno, retorna no ano seguinte, do modo que, em relação à duração de nossas vidas, ela pode de fato ser considerada eterna. A beleza da forma e da face humana desaparece para sempre no decorrer de nossas próprias vidas; sua evanescência, porém, apenas lhes empresta renovado encanto. Um flor que dura apenas uma noite nem por isso nos parece menos bela. Tampouco posso compreender melhor por que a beleza e a perfeição de uma obra de arte ou de uma realização intelectual deveriam perder seu valor devido à sua limitação temporal. Realmente, talvez chegue o dia em que os quadros e estátuas que hoje admiramos venham a ficar reduzidos a pó, ou que nos possa suceder uma raça de homens que venha a não mais compreender as obras de nossos poetas e pensadores, ou talvez até mesmo sobrevenha uma era geológica na qual cesse toda vida animada sobre a Terra; visto, contudo, que o valor de toda essa beleza e perfeição é determinado somente por sua significação para nossa própria vida emocional, não precisa sobreviver a nós, independendo, portanto, da duração absoluta.
   Essas considerações me pareceram incontestáveis, mas observei que não causara impressão quer no poeta quer em meu amigo. Meu fracasso levou-me a inferir que algum fator emocional poderoso se achava em ação, perturbando-lhes o discernimento, e acreditei, depois, ter descoberto o que era. O que lhes estragou a fruição da beleza deve ter sido uma revolta em suas mentes contra o luto. A idéia de que toda essa beleza era transitória comunicou a esses dois espíritos sensíveis uma antecipação de luto pela morte dessa mesma beleza; e, como a mente instintivamente recua de algo que é penoso, sentiram que em sua fruição de beleza interferiam pensamentos sobre sua transitoriedade.
   O luto pela perda de algo que amamos ou admiramos se afigura tão natural ao leigo, que ele o considera evidente por si mesmo. Para os psicólogos, porém, o luto constitui um grande enigma, um daqueles fenômenos que por si sós não podem ser explicados, mas a partir dos quais podem ser rastreadas outras obscuridades. Possuímos, segundo parece, certa dose de capacidade para o amor – que denominamos de libido – que nas etapas iniciais do desenvolvimento é dirigido no sentido de nosso próprio ego. Depois, embora ainda numa época muito inicial, essa libido é desviada do ego para objetos, que são assim, num certo sentido, levados para nosso ego. Se os objetos forem destruídos ou se ficarem perdidos para nós, nossa capacidade para o amor (nossa libido) será mais uma vez liberada e poderá então ou substituí-los por outros objetos ou retornar temporariamente ao ego. Mas permanece um mistério para nós o motivo pelo qual esse desligamento da libido de seus objetos deve constituir um processo tão penoso, até agora não fomos capazes de formular qualquer hipótese para explicá-lo. Vemos apenas que a libido se apega a seus objetos e não renuncia àqueles que se perderam, mesmo quando um substituto se acha bem à mão. Assim é o luto.
   Minha palestra com o poeta ocorreu no verão antes da guerra. Um ano depois, irrompeu o conflito que lhe subtraiu o mundo de suas belezas. Não só destruiu a beleza dos campos que atravessava e as obras de arte que encontrava em seu caminho, como também destroçou nosso orgulho pelas realizações de nossa civilização, nossa admiração por numerosos filósofos e artistas, e nossas esperanças quanto a um triunfo final sobre as divergências entre as nações e as raças. Maculou a elevada imparcialidade da nossa ciência, revelou nossos instintos em toda a sua nudez e soltou de dentro de nós os maus espíritos que julgávamos terem sido domados para sempre, por séculos de ininterrupta educação pelas mais nobres mentes. Amesquinhou mais uma vez nosso país e tornou o resto do mundo bastante remoto. Roubou-nos do muito que amáramos e mostrou-nos quão efêmeras eram inúmeras coisas que consideráramos imutáveis.
   Não pode surpreender-nos o fato de que nossa libido, assim privada de tantos dos seus objetos, se tenha apegado com intensidade ainda maior ao que nos sobrou, que o amor pela nossa pátria, nossa afeição pelos que se acham mais próximos de nós e nosso orgulho pelo que nos é comum, subitamente se tenham tornado mais vigorosos. Contudo, será que aqueles outros bens, que agora perdemos, realmente deixaram de ter qualquer valor para nós por se revelarem tão perecíveis e tão sem resistência? Isso parece ser o caso de muitos de nós; só que, na minha opinião, mais uma vez, erradamente. Creio que aqueles que pensam assim, e parecem prontos a aceitar uma renúncia permanente porque o que era precioso revelou não ser duradouro, encontram-se simplesmente num estado de luto pelo que se perdeu. O luto, como sabemos, por mais doloroso que possa ser, chega a um fim espontâneo. Quando renunciou a tudo que foi perdido, então consumiu-se a si próprio, e nossa libido fica mais uma vez livre (enquanto ainda formos jovens e ativos) para substituir os objetos perdidos por novos igualmente, ou ainda mais, preciosos. É de esperar que isso também seja verdade em relação às perdas causadas pela presente guerra. Quando o luto tiver terminado, verificar-se-á que o alto conceito em que tínhamos as riquezas da civilização nada perdeu com a descoberta de sua fragilidade. Reconstruiremos tudo o que a guerra destruiu, e talvez em terreno mais firme e de forma mais duradoura do que antes.

1 de novembro de 2012

"A tristeza é Azul" - Anotações da palestra de Marcus Quintaes


   Meu intuito não é expor um resumo ipsis litteris das reflexões feitas por Marcus Quintaes na palestra "A tristeza é azul: notas arquetípicas sobre a melancolia". Meu interesse é apenas compartilhar (e, acima de tudo, organizar internamente!) algumas impressões, expor as marcas impressas em minha subjetividade pelo "enfoque cromático" de certos estados psíquicos (depressão, tristeza, melancolia, apatia, desespero, inanição...). Conciderá-los como portadoras de uma  "tonalidade azul" nos permite compreender que são, antes e para além da abordagem redutiva dos diagnósticos, situações inerentes à alquimia exsitencial.   
   Vale ressaltar que é impossível arrolar todas as interessantes ideias com as quais entrei em contato. Algumas (sobretudo aquelas referentes à alquimia), não serão mencionadas por exigirem maiores elaborações que tornariam o texto muito denso. Listo apenas aquelas que chamaram mais a minha atenção, ideias que puderam se ligar com outras já pré-existentes e que, por isso mesmo, ecoaram em mim. São como ideias-sementes que foram lançadas em terrenos já conscientes e que, portanto, são passíveis de germinar e brotar, agora, em palavras...     
   Vamos ao que interessa: às impressões
 - Podemos pensar a depressão como uma espécie de homogeneização de estados psíquicos distintos. Em baixo “do guarda-chuva depressão” encontramos inúmeras condições psíquicas que não podem ser reduzidas ao diagnóstico patologizante conhecido como depressão. As consequências dessa generalização são a medicalização e os esforços contínuos para extirpar todo e qualquer sentimento “não alegre”.
- Vivemos sob a égide de uma cultura performática, hedonista, competitiva, imediatista, consumista e, principalmente, perversa. Sua crueldade consiste no fato de que ao mesmo tempo em que rejeita a letargia, a tristeza, a depressão, a apatia, a dúvida, a melancolia (a lista é grande!), ela é mestra em gerar em nós (com todas as suas exigências, protocolos e receitas prontas para o sucesso) todos esses sentimentos/estados/sensações tidos como indesejáveis, inadequados e contraproducentes. Essa contradição é responsável por muitos conflitos intrapsíquicos e interpessoais.
- A tristeza é, em si, uma condição existencial não patológica. Tanto a alegria quanto a tristeza são “personagens” no palco da vida e ambas merecem seu devido reconhecimento. Apesar da aceitação e enfrentamento da tristeza não serem encorajados por nossa cultura unilateral (onde só há espaço para o belo) o esforço legítimo não deve ser o de eliminá-la automática e drasticamente toda vez em que entra em cena. O mais sensato é buscar formas de afirmar a vida apesar de sua tragicidade. E uma delas (que encontra no setting terapêutico um lugar privilegiado) é ir em busca das imagens da tristeza. Ao invés de fugir, buscar um relacionamento com essas imagens numa tentativa de individuá-las, ou seja, de conduzi-las a um estado de maior diferenciação e consciência. (Para os não familiarizados com o conceito junguiano de individuação vale, em caráter propedêutico, ler a breve descrição do Wikipédia  ou ainda a do Dicionário Crítico de Análise Junguiana).
- Nesse sentido, cabe ao analista se questionar o quanto é capaz de suportar a tragicidade das histórias que batem a sua porta, o quanto é capaz de receber o trágico sem se coadunar ao imediatismo de soluções e o amortecimento da dor por vias alienantes, tão caras à nossa sociedade. O convite analítico é o de descer ao mundo subterrâneo para possivelmente se reerguer com uma maior compreensão, seja do sofrimento em questão ou do fato de que as chagas são intrínsecas à condição humana  O pedido (do) inconsciente do analisando é, como cantou Nelson Cavaquinho, o de que tiremos o nosso sorriso (muitas vezes amarelo e “chocado”) do caminho para que ele possa passar com a sua dor. E passar, é o verbo exato!
   Essas são apenas algumas reflexões suscitadas pela palestra e mais desdobramentos ainda virão!
   Finalizo citanto Connie Zweig e Jeremiah Abrams (em "Ao Encontro da Sombra"). São palavras que vão ao encontro do exposto aqui e na palestra:
   "A depressão também pode representar uma confrontação paralisante com o lado escuro, um equivalente moderno da 'noite escura da alma' do místico. Nossa exigência interior para que desçamos ao mundo subterrâneo pode ser suplantada por considerações de ordem externa (como a necessidade de trabalhar por longas horas), pela interferência dos outros ou por drogas antidepressivas que amortecem a nossa sensação de desespero. Nesse caso, deixamos de apreender o propósito da nossa melancolia" (p.18) 



20 de outubro de 2012

A superação dos obstáculos rumo a auto-realização


É natural pensar que o corpo tem seu trajeto inexorável: nascer, crescer, gerar novas vidas, envelhecer e morrer. Mas quando pensamos na psique, nos parece “místico” demais, ou até mesmo irreal, pensar que ela também tem um longo trajeto a ser percorrido e um objetivo "a cumprir". É o que Jung chamou de processo de individuação.
      Assim como do corpo espera-se o amadurecimento e a perpetuação (reprodução), do desenvolvimento da psique esperamos o nascimento do homem realizado. Psicológica e junguianamente falando, temos um árduo caminho a trilhar em direção ao "tornar-se realmente quem somos", um ser ‘não dividido’, uma pessoa integrada e mais consciente de suas inúmeras e distintas potencialidades, que podem e devem coexistir mesmo quando o externo valoriza apenas algumas das infinitas capacidades humanas, desencorajando e deslegitimando tantas outras. Como afirma Nise da Silveira: “Todo ser tende a realizar o que existe nele em germe, a crescer, a completar-se. Assim é para a semente do vegetal e para o embrião do animal. Assim é para o homem, quanto ao corpo e quanto à psique”.
De acordo com o pensamento junguiano, há em nós um impulso inato à plenitude. Na medida em que assumimos a tarefa de nos tornarmo inteiros, auxílios de fontes inesperadas surgem para reafirmar a autenticidade do nosso intento. Segundo M. Esther Harding, essa tendência a buscar a plenitude ou totalidade se assemelha a um instinto e, assim como os instintos, é capaz de mostrar os caminhos que devem ser seguidos para a preservação e concretização do desenvolvimento interior. Dentro desta mesma perspetiva, sabiamente Goethe escreveu:
“No momento em que nos comprometemos, a providência divina também se põe em movimento. Todo um fluir de acontecimentos surge ao nosso favor. Como resultados da atitude, seguem todas as formas imprevistas de coincidências, encontros e ajudas, que nenhum ser humano jamais poderia ter sonhado encontrar. Qualquer coisa que você possa fazer ou sonhar, você pode começar. A coragem contém em si mesma, o poder, o gênio e a magia”.
Assim, apesar de sermos dotados de uma capacidade inata para a auto-realização, precisamos não só de confiar nessa propensão natural, necessitamos de COMPROMETIMENTO e ATITUDE, pois é justamente da ação que advém “todas as formas imprevistas de coincidências, encontros e ajudas”. 
Em nossa caminhada, são raras as vezes em que o que realmente falta para nos sentirmos realizados é sorte, “peixadas” ou oportunidades facilitadas. Carecemos, na maioria das vezes, de foco e direcionamento. Se não subestimarmos nossa força para a auto-realização e se nos posicionarmos em direção ao que acreditamos (sonhos, projetos, objetivos), inevitavelmente o universo passará a conspirar a favor. Como defendeu Goethe, a sorte, as coincidências e ajudas são, em realidade, respostas à coragem e à atitude!
Karen Horney (psicanalista alemã), também defensora da idéia de que somos portadores do desejo de crescer com curiosidade, vontade e gosto pela vida, acrescenta que, assim como a lagarta inevitavelmente se transformará em borboleta, na medida em que os obstáculos em nossas vidas forem sendo removidos, fatalmente nos desenvolveremos e nos transformaremos em um ser maduro e realizado. Uma de nossas atitudes fundamentais é, portanto, identificar e remover os obstáculos que bloqueiam nosso caminho, pois “o resto se segue automaticamente, alimentado pelas forças inatas de auto-realização” (Irvin D. Yalom). É o casamento entre duas polaridades, ação e entrega, que quando harmonizadas resultam em fruição da energia vital em prol de uma existência mais expandida., mais significativa 
É em sintonia com essas forças de ação e entrega que inicio este blog, cujo maior objetivo é semear os conhecimentos sobre a psicologia junguiana que, como tenho presenciado em minha prática clínica e em minha jornada pessoal, podem de fato favorecer o crescimento e nos alinhar ao fluxo natural de transformação interior.