Este é um espaço para a reflexão de temas que em algum momento e por alguma razão (do meu contexto pessoal ou da minha prática clinica) se tornaram, usando uma expressão gestáltica, importantes FIGURAS no imenso FUNDO existencial.

2 de maio de 2013

Fidelidades perversas e traições leais

 

    Venho hoje refletir sobre uma situação da qual ninguém, ou ao menos aqueles que já a experimentaram, sente disposição para relembrar. Assunto delicado, tão assustador e pungente, tão presente e ao mesmo tempo negligenciado por nossa vida consciente. Relegado ao esquecimento, ao inconsciente e normalmente associado a vergonha, a vingança e a culpa; mas nunca ao crescimento e autoconhecimento.
   Motivada por algumas leituras (Bonder, Carotenuto, Hollis) e, de certa forma, pela lógica "nelsonrodriguiniana" de que devemos ver a vida "tal como ela é", sinto-me impelida a refletir sobre aqueles momentos em que fomos ou nos sentimos traídos, abandonados, trocados... e tantos outros verbos que compõem a cena dolorosa da traição.
    Claro que essa palavras podem assumir uma forma adjetiva (mulher rejeitada, homem traído, mulher abandonada), mas insistir que no drama da traição o melhor é concebe-las como verbos é ressaltar um ponto central, que faz toda a diferença: tanto "eu" quanto "ele" ou "ela" traímos, abandonamos e rejeitamos. Quer queiramos ou não reconhecer, somos todos sujeitos destas ações, ao menos em potencial. E estamos todos sujeitos a elas. Tendo sido eu ou não "o agente do verbo" trair, a realidade é que não há nesta vivência dolorosa '"sujeito agente ou paciente", "passivo ou ativo", vítima ou algoz. Ambos são, a um só tempo, agentes e vitimas de um desencontro que desembocou numa traição. Nesse sentido, Hollis afirma que:
"A pílula mais amarga na traição pode ser reconhecermos relutantemente, amiúde anos depois, que nós fizemos parte do balé conivente que com o tempo provocou a traição. Se conseguirmos engolir esta amarga pílula, teremos uma sensação bem mais ampla de controle da nossa sombra. Nem sempre iremos gostar do que seremos intimados a reconhecer. (...) Mas a partir dessa amarga erva, muita consciência evolui" (Hollis, em "Os pantanais da Alma", p.67). 
    Carotenuto, num livro com título um tanto provocador ("Amar, trair: quase uma apologia da traição"), defende o mesmo ponto de vista:
"A verdade é que a traição não pode ser atribuída a um só dos componentes do casal; em certo sentido, traído e traidor recitam um texto preciso, no qual, porém, cabe ao traidor a parte mais onerosa. Ele deve assumir a responsabilidade de preparar as bases para uma revisão e dissolução de uma relação que já perdeu toda razão de ser. Muitas vezes o traído já há muito pressentia o drama, mas sentia necessidade de negá-lo, porque investira tudo na outra pessoa" (Carotenuto, p. 132) 
     Falar da dor da traição é, portanto, falar da dor em reconhecer que o outro, aquele que me machuca, também é uma faceta minha e que com sua ação ele está comunicando algo sobre mim mesma, sobre ele e sobre a nossa relação.
   Identificar-se apenas com a vítima é o mesmo que solapar a possibilidade de ampliação da consciência e transformação. O traidor é, na verdade, o executor de algo que o traído, mesmo inconscientemente e diante de todas as suas repressões, também é capaz de fazer, mental ou concretamente. Somos todos hospedeiros de luz e sombra, das infinitas polaridades e possibilidades humanas, quer concretizemo-las ou não. O reconhecimento da nossa capacidade de também trair não nos habilita apenas ao perdão, mas sobretudo à libertação da dor e do ressentimento; condição necessária para que possamos seguir, com o mesmo parceiro ou numa nova relação.
    Na medida em que saímos da identificação rígida com apenas um dos polos (sou o traído, sou o traidor) abrimos a possibilidade de adentrar num território de possível crescimento pessoal e conjugal. Conseguir, diante de uma situação de traição, transitar entre os dois "lugares" é valorizar que, para além de vítima ou culpado, há, implícito à traição, algo muito mais importante, uma espécie de alerta: a infelicidade ou a insatisfação encontraram um jeito, talvez o pior, de se abrandarem. Insatisfação comigo mesmo (daí a necessidade, às vezes compulsiva, de uma terceira pessoa que me reafirme, que me regozije) ou com a relação.
    É sobre esta última motivação que pretendo me delongar. A primeira (insatisfação consigo próprio, insegurança, baixa autoestima e ect) conduziria a discussão sobre traições para outros rumos.
   Trair por descontentamento com a relação é o mesmo que fugir de um lugar onde estamos nos sentido "apertados", comprimidos.  É claro que esta não é a única ou melhor solução, pois um novo relacionamento, mas cedo ou mais tarde, desembocará novamente num "lugar apertado", onde dois corpos (leia-se subjetividades) mais uma vez se depararão com a real dificuldade de ocuparem um mesmo espaço... dois mundos espremidos!
   Nilton Bonder, em "A Alma Imoral", descreve quatro possíveis comportamentos que normalmente assumimos quanto estamos diante da necessidade de sair do "lugar estreito". Lugar que outrora serviu para nosso desenvolvimento e satisfação, mas que em um determinado momento (e por vários motivos) se tornou apertado e limitador:

  1º- Recuar: resolvemos, finalmente, sair do "lugar estreito", mas diante da força do hábito e do medo da mudança, preferimos recuar e ali permanecemos, mesmo que descontentes. A consequência: desacreditamos no novo e passamos a concebê-lo apenas com uma ilusão. É, em outras palavras, a conformidade com a realidade e com as limitações que ela impõe.
  2º- Lutar: é a crença de que se poderá fazer do  próprio lugar estreito um lugar mais amplo. A premissa é que jamais deve-se esquecer que o lugar estreito um dia não o foi.
 3º- Desesperar-se: é a crença na intransponibilidade do "lugar estreito" que gera desesperança no futuro. "Desse desespero surge a resignação de que, apesar de não se voltar ao lugar estreito, jamais se poderá atingir um novo lugar amplo" (Bonder, p.48).
  4º- Orar: é a crença de que a mudança pode acontecer sem uma nova definição de si, do outro e da relação. É a inútil esperança de que a realidade pode vir a se tornar mais compassiva sem a remodelação necessária.

    Apesar de Bonder ter concluído que nenhuma das quatro são alternativas válidas para uma verdadeira superação do "lugar estreito", acredito que o segundo comportamento (lutar) é uma possibilidade legitima de superação da problemática do estreitamento quando o "lugar estreito" em questão é um casamento. Bonder trabalhou com um conceito mais amplo de estreiteza, mencionou lugares estreitos que nem sempre são passiveis de "alargamento" pela luta. Mas quando o assunto é relacionamento, às vezes, "o comportamento de luta" pode, de fato, assumir uma forma positiva e altamente transformadora. Nesses casos, "lutar" para fazer do próprio lugar estreito um lugar mais amplo me parece o mesmo que  reconhecer que a traição (a fuga) não se configura como uma alternativa duradoura. Como dito anteriormente, nenhum lugar poderá ser amplo para sempre. O ponto de equilíbrio não é estático e é na aceitação e envolvimento consciente com a  força constante da tensão entre os opostos que o equilíbrio pode ser repetidamente reconquistado.
     Apesar da pertinente associação  da traição à fuga, essa é uma meia verdade, é apenas uma possibilidade associativa dentre várias outras. Se não tivermos medo de olhar as coisas pelo "lado escuro" ou avesso, é possível reconhecer que apesar da traição não ser uma solução, em alguns casos, ela pode se configurar como uma tentativa de renascimento, de revitalização. "Se o outro (...) é aceito somente enquanto corresponde à expectativa, é claro que, na vida de casal, cada um é delimitado em um papel, e não pode sair dele. A traição pode ser lida, portanto, não só como abandono do outro, mas também como tentativa irada de reconhecimento daquelas partes de si sufocadas na relação" (Carotenuto, p.135).
   Para não cairmos numa espécie de apologia à traição ou defesa aos traidores, é fundamental frisar que as motivações são diversas e distintas em cada caso particular. Atribuímos importância excessiva ao ato exterior e diminuímos a importância do estado interior; a manifestação exterior é secundária quando queremos considerar a raiz do problema (Palestra Pathwork nº 74 - Confusões duvidosas e motivações nebulosas). Então, para além da moral, do certo ou errado, bonito ou feio, o ponto central é discernir se a traição corresponde a um movimento/desejo de crescimento ou é apenas expressão de confusão destruidora, narcisista, vingativa e infantil. Cometê-la sem interrogar-se sobre a qual inquietação ela se refere é o mesmo que permanecer inconsciente dos limites (pessoais ou relacionais) que tem perturbado a possibilidade de se manter numa relação estável e duradoura. É ficar eternamente sujeito ao ciclo nada transformador de insatisfação-traição. Essas reflexões são importantíssimas quando há uma compulsão à trair, uma busca cega "sabe-se lá do que", um padrão repetitivo que nada tem a ver com a procura madura e consciente de auto realização. O donjuanismo e o coquetismo são, inegavelmente, desastrosos sintomas que precisam ser melhor compreendidos.  Como ressalta Bonder, esse tipo de infidelidade, esse "tipo de traidor" não age em função da necessidade de romper com uma situação externa disfuncional; mas sim, no sentido de perpetuar uma situação interna (psicológica) disfuncional. Suas ações são mais do que uma traição ao outro; eles traem, acima de tudo, a própria alma (psique), o próprio crescimento. Quando o Self nos "convida" à transgressão, ela inevitavelmente  se configura como um passo em direção à saúde, ao crescimento, à expansão. Quando o convite é feito pelo ego, ou por partes sombrias de nossa psique, a transgressão é apenas um ato de manutenção de patologias.  
    Em meio às reflexões sobre infidelidade é necessário também falar do seu oposto: a fidelidade. Retomo Bonder: a infidelidade é tanto o rompimento de compromissos quanto a manutenção dos mesmo de forma destrutiva, pois há fidelidades perversas e traições de grande lealdade. Há de se considerar que "...é possível que uma pessoa não cometa jamais uma ato de infidelidade, mas as motivações de sua 'fidelidade' podem ser tão doentias e imaturas quanto as motivações que levariam a pessoa a ser infiel externamente. A fidelidade exterior pode não ser fidelidade verdadeira. Portanto, o ato exterior fora de contexto e por si mesmo não pode ser adequadamente avaliado" (Palestra Pathwork nº 74 - Confusões duvidosas e motivações nebulosas) 
    Assim sendo, o que é ser fiel? É necessário ser fiel! É isso que aprendemos, é isso que desejamos quando entramos num relacionamento e é o que prometemos. Mas é necessário ser fiel ao quê? Ao outro? Acredito, assim como Bonder, Hollis, Carotenuto e tantos outros, que se deve, acima de tudo, ser fiel ao crescimento psicológico pessoal. E para isso preciso, necessariamente, trair ao outro? Na verdade não é ao outro que devemos trair, mas sim ao padrão de relacionamento, à zona de conforto. À suposta zona de conforto, aquele "lugar apertado" demais para os anseios do Self, mas vivido pelo ego como confortável, seja por medo da mudança ou pelo apego aos "ganhos secundários" de se permanecer numa relação, ainda que medíocre. Quem realmente devemos trair é o hábito, o medo, a rotina, a estreiteza, os pactos disfuncionais inconscientemente estabelecidos entre os cônjuges...
    Aparentemente é muito mais fácil tentar resgatar fora aquelas coisas que foram perdidas (ou vetadas) dentro de uma relação intima. Bonder bem ilustra essa dificuldade de fazer coincidir crescimento pessoal e crescimento conjugal:
"Observemos um casal que vive uma relação de casamento. O desequilíbrio maior surge quando um dos dois dá um passo à frente em direção à sua vida. Esse passo, que é muito transgressivo em relação à sua situação acomodada, deveria gerar um passo também no cônjuge  Se isso acontecesse, ambos estariam equilibrados e sua dinâmica seria natural. No entanto, o que mais acontece como reação a um passo à frente é que o outro dá um passo para trás. O desequilíbrio então se estabelece e uma situação não-dinâmica atravanca o processo vital. A maioria dos casamentos termina pela ocorrência desse ato reflexo. Quando um cônjuge esboça transformações em sua pessoa, implicando em transformações na relação, o outro muitas vezes cobra justamente os compromissos assumidos, dando um passo para trás. Não reconhece que seus direitos de apego não têm o menor valor numa relação em que o compromisso explícito é o relacionamento. Se, numa relação, alguém se modifica, o pacto é este: todos devem se colocar em movimento. A reação de dar um passo para trás - expondo carências, coletando justificativas ou evocando direitos - é um apego que, em si, é a maior das traições ao sonho assumido em pacto" (Bonber, p.31).
   São os curtos caminhos longos, nos quais a obediência acaba por significar desrespeito e a desobediência respeito (Bonder). A porta de saída dessa situação perversa me parece ser o diálogo, a forma mais transgressiva de lutar pela manutenção do que vale a pena é o casamento entre uma expressão sincera e um ouvinte corajoso e aberto. Mas a base para qualquer comunicação verdadeira e profunda é a auto observação e o auto conhecimento. Se dançávamos valsa e agora sei que o que me apetece é dançar tango, nada mais natural do que avisar ao parceiro e perguntar se ele topa experimentar esse novo ritmo. Do contrário, o velho misoneísmo (aversão a mudanças e hostilidade para com o novo) ganha a cena e o descompasso se instaura, as pisadas no pé se tornam quase que inevitáveis e a dança perde toda a sua beleza e sentido. Se conheço apenas superficialmente minhas motivações, vontades e necessidades como posso expressá-las a contento?  É a consciência do locutor/emissor que funciona como esteio para que a revelação autêntica possa florescer. É a consciência do interlocutor/receptor que permitirá, tal como um solo fértil, receber o florescimento de uma verdade alheia. E nessa arte de restaurar a dinâmica vital temos que correr riscos e transgredir algumas convenções, acreditar que "há um olhar que sabe discernir o certo do errado e o errado do certo. Este olhar é o da  alma" (Bonder).
 



   



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