Este é um espaço para a reflexão de temas que em algum momento e por alguma razão (do meu contexto pessoal ou da minha prática clinica) se tornaram, usando uma expressão gestáltica, importantes FIGURAS no imenso FUNDO existencial.

10 de maio de 2013

"Estou me sentindo tão mal, desprezível, miserável'" - O contato errôneo e nocivo com a sombra.


"Não há despertar de consciência sem dor. 
As pessoas farão de tudo, chegando aos limites do absurdo
 para evitar enfrentar sua própria alma; 
 ninguém se torna iluminado por imaginar figuras de luz, 
mas sim por tornar consciente a escuridão".
                                                                                                                                        C.G.Jung


    A honestidade é, sem dúvida alguma, essencial para o enfrentamento da sombra, aquela nossa faceta que compreende os aspectos de nossa personalidade que são difíceis de aceitar, dolorosos de serem reconhecidos.
     Quando a sombra emerge em nossas interações cotidianas, colocando-nos em "maus lençóis", de duas uma: ou ela destrói nossa auto-estima e passamos a nos sentir o ser mais desprezível; ou somos impelidos à racionalizações e saímos supostamente ilesos do contato com as nossas verdades desagradáveis. Ou caímos na autoflagelação ou projetamos o mal e o erro no outro e nos esforçamos ao máximo para encontrar explicações irrefutáveis que justifiquem nossas ações. Em ambos os casos a árdua necessidade de integração de nossos aspectos inferiores é minada.

Todos nós sabemos, ou deveríamos saber, da dor e da delícia de sermos quem somos. Mas só quem verdadeiramente não fechou os olhos para a dor, a vergonha e o desespero que surgem do reconhecimento de que somos possuidores de sentimentos/atitudes infantis, egoístas, invejosas, arrogantes, competitivas e por aí vai... pode realmente ser honesto consigo mesmo e, por consequência, com o outro.
 Precisamos nos olhar com sinceridade, tirar da sombra (da inconsciência) tudo o que foi escondido por ser inaceitável, mau, mesquinho ou fraco. Mas a honestidade não é suficiente! Esse desnudar-se sem pudores pode realmente ser letal, altamente desestruturante e nocivo. E é justamente por causa do medo da desintegração que nossa habitual resistência para olhar o nosso lado sombrio se reedita sucessivamente a cada nova oportunidade de ampliação da consciência. Mas como pode ser letal a conscientização de algo que ao ser aceito, trabalhado e integrado nos conduzirá inevitavelmente  ao crescimento?
     São inúmeras as respostas, mas todas estão, de uma forma ou de outra, enredadas num mesmo ponto: a honestidade necessária é usada contra e não a favor do crescimento. As principais molas propulsoras deste casamento entre honestidade e "autodestruição" são, dentre tantas outras, as seguintes:

1- A influência, mesmo que indireta ou inconsciente, da tão disseminada cultura cristã do pecado. Diante de nossos "pecados", passamos a nos conceber como impuros, não merecedores da "graça divina" e altamente suscetíveis ao castigo, à punição e à interdição no "paraíso". É o medo de sermos, em essência, maus, sem salvação, ou indignos de amor que nos aliena do contato como nosso lado negativo (que continua a atuar mesmo quando não é "convidado"). Rejeitamos a sombra por medo de que ela seja a síntese de tudo o que somos!

2- A crença de que seremos menos amados por aqueles que nos são significativos, ou pior ainda, por nós mesmos. Diante do contato com nossos "nós-cegos", experimentamos a baixa de nossa auto-estima e o medo paralisante de estarmos sendo julgados, difamados, depreciados, rejeitados pelos os outros. A nossa sensação de segurança e valor são (desnecessariamente) perturbadas pelo contato realista com as inerentes "monstruosidades" que compõem nossa vasta vida interior. E seguimos lutando para manter uma "auto-imagem idealizada", a nossa persona, que deve ser sempre certa e boa, e nunca errada e má.

3- A identificação rígida com o ego e a crença de que ele é a nossa autoridade máxima e de que sua lógica de funcionamento e de "leitura" do mundo é a única existente. Neste contexto, qualquer golpe a magnificência e prepotência do ego é recebido como ilegítimo e sempre sentido de forma destrutiva, nunca como um convite ao crescimento e ampliação. Quando o ego assume unilateralmente a direção da vida, vivemos inconscientes de outras partes de nós mesmo: da sombra, da persona, da anima, do animus e, sobretudo do Self (o eu maior), aquele que nos convida (via sonhos, atos falhos, fantasias, sintomas) a mudar de rumo quando nossa atitude (perante a vida, os outros e a nós mesmos) está nos afastando da realização de nosso potencial.

     Reféns destas crenças acabamos por sucumbir à tentação de não sermos honestos com a existência do nosso lado pouco desenvolvido. E quando somos, caímos em desespero, desesperança. Ou o negamos ou nos emaranhamos na vergonha, na autopunição e na culpa. Mas a realidade é que não precisamos nem nos defender nem nos emaranhar na dor, que apesar de ser parte inevitável da consciência de nossos atos, não deve ser motivo de evitação ou paralisação. Se esperarmos alcançar a satisfação na vida e nas relações sem efetivamente encarar tudo o que bloqueia essa vivência, vamos permanecer em perpétua ilusão e nosso crescimento e realização pessoal tornar-se-ão eternamente incompletos ou mesmo inatingíveis.
     "O pulo do gato" é nos filiarmos à idéia de que não existe nada escuro de mais na psique humana a ponto de não poder ser transformado, desde que trazido à luz da consciência. E agora entra o ponto fundamental: não é apenas com honestidade que devemos iluminar o terreno sombrio de nós mesmos. Para realizarmos esta tarefa de forma segura é preciso, sobretudo, de respeito, amorosidade e compaixão. Nos punir por nossas imperfeições é o mesmo que cultivar a irreal idéia de que somos ou deveríamos ser indefectíveis. Essa ilusão torna o erro mais simples e inocente numa catástrofe para a nossa auto-estima.
     Aprender a acolher tudo o que há em nós é a única forma para desenvolvermos os vários "eus inferiores" que nos habitam e tanto nos prejudicam. A avaliação situacional e a auto-avaliação devem ser sempre objetivas e compassivas.
"Tornar-se um auto-observador amoroso é comparável a tornar-se um bom pai ou mãe de nós mesmos. Lentamente, aprendemos a nos amar incondicionalmente, amar em especial aquelas facetas nossas que são infantis, fracas ou imaturas. O bom pai reconhece os pontos fortes do filho e ajuda-o a desenvolver os pontos fracos. O bom pai aceita o filho por inteiro, incluindo os sentimentos negativos (...) Nossas facetas negativas podem ser encaradas como a criança imatura que habita em nós e precisa receber amor para 'crescer' e expressar-se de forma madura" (Susan Thesenga em "O Eu sem defesas", p. 61)
     Quando não recriminamos ou rejeitamos nossos aspectos imaturos, damos a eles aquilo de que mais precisam para crescer: aceitação.
"Muitas vezes assumimos uma postura de alarde ou desaprovação, ou até de desespero, quando descobrimos que estamos agindo ou sentindo de um modo não compatível com a auto-imagem idealizada. Mas nós não podemos mudar um comportamento cuja origem está nos nossos eus não desenvolvidos enquanto o comportamento e as atitudes subjacentes não forem levados à consciência. A autocondenação nos leva de volta ao repúdio dos nossos aspectos negativos que, dessa forma, nunca podem ser transformados" (Thesenga, p.57)
     É necessário, portanto, desenvolvermos esta capacidade de "testemunhar" com imparcialidade tanto os processos internos quanto os fatos externos. Só esta avaliação descomprometida com a busca da vítima e do culpado nos instrumentalizará adequadamente para enfrentarmos as crises que acompanham o confronto com nossas imperfeições e com a dos outros. A crise é, em essência, uma tentativa do Self de efetuar uma mudança:
"(...) Qualquer tipo de crise é uma tentativa de desintegrar as antigas estruturas de equilíbrio que se baseiam em falsas conclusões e no negativismo. Ela abala os modos de vida arraigados e estacionados para tornar possível o surgimento do novo. Ela dilacera e dissolve, o que é momentaneamente doloroso, porém, sem isso, a transformação é inconcebível. (...) Na verdade, ela pode ser uma etapa do crescimento quando permitimos que suas lições e a turbulência que acarreta na nossa vida revele níveis mais profundos de distorções ocultas que demandam atenção e transformação" (Thesenga, p. 44).
     Encarar honesta, realista e saudavelmente nossa sombra (nossos "pecados", neuroses, limitações, ignorâncias...) é necessário e urgente, pois mais cedo ou mais tarde, toda recusa a crescer ou a renunciar a velhas atitudes se voltarão contra nós. Resistir ao chamado para mais expansão de consciência e maior desenvolvimento pessoal e interpessoal é o mesmo que provocar mais dor e sofrimento. Diante da negação de que o crescimento pessoal não é apenas desejável, mas é inevitável, acabamos por encarnar o "Trabalho de Sísifo", expressão/metáfora das tarefas que envolvem esforços inúteis. Sísifo, personagem da mitologia grega, foi condenado a repetir a mesma tarefa de empurrar uma pedra da base de uma montanha até o seu topo, só para vê-la rolar para baixo dia após dia. Se não assumirmos o "O Trabalho com a Sombra", assim seguiremos: presos no ciclo do eterno retorno, reeditando dores do passado no presente...
"Todo defeito reconhecido, toda defesa desmantelada e toda dor sentida e liberada nos dão poderosas reservas novas de raciocínio e sentimento para criar uma vida voltada para novas direções positivas. Por outro lado, toda atitude negativa inconsciente, toda defesa mantida, toda dor negada tolhem a energia vital e limitam a consciência" (Thesenga, p. 43).

(O livro de Susan Thesenga "O Eu sem defesas: o método Pathwork para viver uma espiritualidade integral" foi a base para as reflexões aqui expostas. Vejo muita sintonia entre as propostas do Pathwork e a psicologia junguiana e, aos que se interessaram, recomendo a leitura do livro, pois abordei apenas as principais idéias dos três primeiros capítulos).

4 comentários:

Paulo de Gouvêa Bevilaqua disse...

Muito bom o texto, fez muito bem por aqui. Obrigado!

Paula Medeiros disse...

Que bom,Paulo, que essas ideias também fizeram sentido pra você. Para mim elas são muito significativas e libertadoras! Agradeço sua visita e seu feedback!

Rebeca Ho disse...

achei muito bacana esse post o auto conhecimento é realmente uma aventura assustadora porque fazemos uma imagem de como deveríamos ser e nos decepcionamos por não ser

Paula Medeiros disse...

É verdade, Rebeca, o autoconhecimento é uma aventura e tanto! O eu idealizado é uma grande armadilha, uma promessa ilusória de felicidade... e depois que superamos a decepção (própria ou alheia)de não sermos o que achamos que deveríamos ser, abrimos espaço para o prazer e a dor se sermos, simplesmente, quem realmente somos! Como diz Jung: "Só aquilo que somos realmente tem o poder de nos curar". Grata pela visita e pelo seu compartilhar!